Sexta-feira, Março 21, 2008

FIM - Owari!

Hai Shimarimasu!
No Japão aprendi que enquanto não se sabe como fazer muito bem, não se faz. Porventura isto não servirá como uma desculpa para justificar o hiato deste blog: também aprendi que as desculpas, sinceras ou não, não servem para nada.
Hilariante: termina o hiato, e termina o blog. “Hai Shimarimasu!” é o aviso docilmente eficaz que as portas do metro vão fechar. As portas deste blogue fechar-se-ão com este texto, a carruagem continuará em movimento.

Não há nada que a cultura japonesa não tenha feito escrever. À parte a descrição das vivências gastronómicas em izakayas, madrugadas em Love Hotels, perfil psicológico de personagens, aulas de Japonês, narrativas urbanas, ou pequenas expedições solitárias, tenho consciência que neste espaço já disse sobre o Japão tudo o que tenho a oferecer à interpretação.

Mantenho-me numa liberdade condicional, preso fora do Japão. O fantasma do Tiagosan continua em Tóquio preso fora de mim. Quero voltar, quero escrever o epílogo que me negaram. Quero voltar, mas não quero ficar. Ainda não abandonei a virtude de abandonar.

Um casamento a pedido da conveniência, uma bolsa de aperfeiçoamento artístico, ou um acto de oxigenação de consciência por parte de um empregador, fazem de mim um molde de um carimbo burocrático. Em Julho haverá novidades. Até lá ronha o tempo como uma lesma. Se a novidade for um pesadelo, não será pesadelo. Apesar de quando lá estamos parecer, o mundo não é o Japão.


Lições de um choque cultural
1. Todos os dias aprendemos com todos. É sempre possível melhorar, porque a perfeição existe: perfeição é tentar atingir o seu lugar inatingível. Exigir dos outros o mesmo que exigimos de nós.

2. Pensar antes de fazer. A espontaneidade é a forma de aprender com os erros.
Ser-se preciso, até no vai-não-vai.

3. Não somos escravos das emoções, é o vice-versa. A disciplina de controlar o descontrolo. Paciência é saber aproveitar os instantes impacientes. Para um dia se ser, é-se hoje.

4. “Sou do tamanho do que vejo”. Necessário é esticar a percepção e abafar preconceitos. Abrir, ler, observar, mudar, apagar.

5. A diferença entre as pessoas serem ilhas ou serem gotas. Ocidentais escolhem o oriente como orientais escolhem o ocidente. Os rebeldes não se acomodam. Os rebeldes japoneses não se acomodam: saem, ou do país ou da vida.

6. Tagarelar quebra a respiração. Não respiramos, não existimos. Basta de achar que sabemos. Não sabemos, ouvimos! O objectivo é perceber que nunca saberemos.

7. A fachada racional de encobrir a ferrugem dos alicerces emocionais ou o desabafo desanuviante de entornar a gramática, ambos sofrem. A reverência da obediência ou a irreverência da desobediência, ambos sofrem.

8. A saudade, métrica do coração português, é suicida: mata-se a si própria. É uma ilusão passageira. É a psicose brumosa de que algo falta para vir. Até se ver que não vem.

9. O relativismo é protagonista no teatro da existência. As coisas não são, os sabores não são, os valores não são, a moral não é. Nada é, tudo nos parece.

10. Somos onde estamos. É nossa essência a adaptação.
O erro de achar que a felicidade está do outro lado: o lado onde estamos é sempre o nosso lado.

11. O Japão alumiou o acidente que sou. Arigatou Nippon.


O Efeito
Foi no Japão que vi o sol nascer. Consegui a independência económica, a única que ainda há para a ver. Transformei-me num samuraizinho tenrinho como sashimi, tornei-me o gajo que viveu dois anos no Japão, entranhei-me na overdose de japonesismo.

Num bonsai vê-se o Japão: o bonsai é uma planta que não lhe permitem ser árvore; não cresce; deforma até que se conforma; suporta viver a gotas de humanidade; é uma harmonia sádica de encanto.
Não fui educado como um bonsai. Cresci silvestre, no meio dos mal-me-queres do meu país. Mas agora o bonsai não sai de mim. Perde-se a voz, esteriliza-se as emoções.

O Japão é um mergulho.

Exercício de salve-se quem puder psicológico, vive-se uma compressão humana incompreensível, percorremos em casulos parados no trânsito uma neblina de identidades, que resiste a questionar; os corpos não tocam, os sentimentos não chocam, o olhar evade-se para evitar que se perceba que mente. É um haraquiri mental constante, vivido na efemeridade da transição, preenchido de solidão.
Estranho os porquês de necessitar regressar. Persegue-me o antes e depois. Tudo mudou. Sinto o Efeito Nipónico.

FIM (Owari!)

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

Os pássaros

Os japoneses não conseguem perceber porque é que os cães rosnam uns aos outros fora do Japão. É preciso ver, ver que os animais são alunos atentos do Homem. Daí os macaquinhos de imitação. Logo, apesar de em Tóquio não haver macacos à solta, se o olhar do Homem encarar o estudo da Etologia, é possível que reveja nos animais um tipo de ser humano transformado em macaquinhos de imitação que imitam seres humanos. No Japão a harmonia pressupõe a cópia.

Na selva de Tóquio não há leões à solta. Nem existe a praga da quantidade de pombos com dificuldades de contenção rectal. O que anda à solta em Tóquio é o bicho negro de bico arrogante, essa mancha escura de olhar afiado, a malvadez corpórea à escala da grande metrópole, na qual Hitchcock se inspirou para exaltar o tema do medo. Os corvos é que são os pássaros. É preciso ter-lhes muito respeitinho, que eles sabem quando estamos a olhar para eles. E olham-nos sempre desconfiados quando estamos a olhar para eles. Até há quem sofra de medriquice aguda – uma doença do foro psicológico com auto-cura – e desvie a sua rota para evitar o olhar penetrante do corvo gigante. Eles atacam mesmo. Nunca mais me esquecerei da forma como um se vingou de eu lhe tirar uma fotografia: deixou o poiso de um cabo eléctrico para fazer um voo rasante pela minha cabeça. Percebi bem o que passarão queria dizer.
E são grandes, feios e porcos. Os corvos são porcos: é nesta mistura de animais, nesta mistura do mesmo, que actua Tóquio.

Assenta-lhes tão bem o negro: são eles que nos lembram desta aparência de beleza, desta artificialidade estéril, desta vontade formatada de educação exterior; o corvo está ali, a remexer o lixo, grasnando, a avisar que tudo é falso.
É o instrumento principal da banda-sonora da cidade. Crocitam, grasnam, craaa, craaa, corvejam, estão sempre por ali, sagazes como…corvos.

No Parque Yoyogi reside uma comunidade de dezenas de milhares de espécimes. Atacam a produção de lixo constante do bairro de Shibuya, enquanto os sacos de plástico estão na rua, de madrugada. O dia recomeça, e o stress urbano esconde-se no dormitar dos passageiros do metro. Há tensão camuflada, como há entre as pessoas e os corvos. Embora não se toquem nem se falem, há ali algo por dizer: o corpo que se comprime, que se contém, põe-se em posição, de disciplina por parte do bicho, de sobrevivência por parte do corvo.

As políticas anunciam a gradual exterminação dos corvos. Mas Tóquio continuará eterna selva urbana. Os pinguins do servir capitalista, os gatos tão japoneses, doninhas em plena cidade, ratazanas submarinas, colegiais e Elvis domingueiros, trajes de Harajuku e ocidentais e, por cima de tudo isto, com uma panorâmica única, interpretando à sua maneira, sob a capa preta das interpretações, Os pássaros.


Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

(De regresso…) O regresso do País Paradoxo

1 Voltemos à saga da contradição: em quase dois anos de Japão, só vi um beijo dado em público: um casal de americanos, muitos sakés depois, a expor o seu amor-ou-lá-o-que-era-aquilo, provocando reacções de espanto nos japoneses transeuntes, que se riam da gratuitidade da performance. (Às vezes há uns adolescentes na estação de Shibuya, a trocar muito secretamente uns ténues encostares de lábios no meio da confusão - que nem se pode considerar beijo, e que só a bisbilhotice de ocidentais como eu e a omnipresença das câmaras de vídeo podem captar).
Ninguém se toca para dizer olá ou adeus, mas nas horas de ponta do metro ou comboio os corpos esmagam-se uns contra os outros. Ora, não há beijinho nem abraço mas há esmagadela com muito amor e apertinho.

2 É famosa a formalidade japonesa. Desculpas depois de obrigados, obrigados seguidos de por favores, respeita-se mais a etiqueta do que o próximo. Até que o álcool começa a fazer efeito e a formalidade fica de ressaca: é ver os salarymen aos ziguezagues pela estação de comboio, até que se deitam no chão e adormecem, sem deixar antes de vomitar em plena plataforma.

3 Os coreanos falam bem inglês, os chineses também, os vietnamitas não sei mas até os filipinos falam e bem. Os japoneses não. Ainda não. As expressões inglesas adaptadas como biru (beer), boru (ball), ou toire (toilet) são exemplos comuns da dificuldade dos japoneses em pronunciar consoantes isoladas. Os japoneses falam às sílabas. O que lhes dificulta a aprendizagem do inglês e, ao saberem que não falam bem, por timidez não falam.
Mas usam o inglês no desporto. De repente e sem que eu encontre explicação, perdem a timidez à volta de um bola e todos falam inglês: naisu pasu; senkyu; rasto purei; gudo shoto.
E eu começo a falar inglês às sílabas também.

4 O Japão é seguramente um dos países mais seguros do mundo. Tóquio é de certeza a mais segura das grandes metrópoles mundiais. (Só em caso de tufão ou terramoto é que será difícil segurar-se.)
No entanto, a maior rede de máfia do mundo é japonesa, a yakuza.

5 Não há perigo para o cidadão, é possível andar na rua à noite em qualquer área, as crianças andam sozinhas, as senhoras e os idosos também, não se vê delinquência, toxicodependência, nem reacções alcoólicas. Mas, e no Japão há sempre um mas, quando as pessoas se despedem dizem “kiotsukete kudasai”, toma cuidado por favor.

6 Songoku, porque é que tens os olhos tão grandes? Porque é que os personagens manga e anime têm os olhos tão grandes, se o manga e o anime nasceram no Japão e os olhos dos seus criadores, são... como dizer sem usar a expressão “em bico”…, asiáticos, ou seja, pequenos?

Aceite o paradoxal e desfrute o Japão, desfrute a vida. Existe contradição na busca de explicação das contradições, que eu não vou explicar nesta frase e assim até parece que me estou a contradizer, o que não faz mal nenhum: se o Japão se contradiz, quem sou eu para não me contradizer?
Se nem sabemos porque vivemos e onde vivemos, viver, só por si, é absurdo. O inexplicável faz parte da existência.
O mundo é uma rede de paradoxos, se abrir bem os olhos pode vê-los em qualquer lado. A diferença entre o Mundo e o Japão é que para ver paradoxos no Japão nem é preciso abrir os olhos. (Que é outro paradoxo.)

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Tudo parece diferente

Nesta vida de negocios, em que nao passa um dia em que nao estejamos na posicao de cliente, as chatices pessoais podem nao ser inevitaveis, mas, no Japao, as chatices que ocorrem quando somos clientes sao, de todo, evitadas. Varios episodios sudesteasiaticos provam a minha inadaptacao a culturas que antes do efeito niponico me eram naturais.

Chego ao restaurante esfomeado. Preciso de uma malga de arroz para reajustar o QI. (Na Asia dao-nos sempre o arroz). Avanco pelo restaurante, escolho um lugar longe do ar condicionado, e sento-me. Ninguem me da atencao. A cozinheira comove-se com o desenlace da telenovela, a empregada folheia a revista, o empregado segura a cabeca contra a parede dos sonhos.

"Isto era impossivel acontecer no Japao!" e um dos pensamentos que mais desliza no para-brisas do meu cerebro. Tenho de avisar as pessoas que querem fazer lucro comigo que estou ali e lhes posso proporcionar esse lucro; tenho de pedir o menu; solicitar um copo com agua; e no fim, de barriga cheia pronta para a passeata, tenho de esperar que percebam que eu quero pagar.

O que me vale e que no Japao aprendi a ser (mais) paciente.

Na terra do Sol Nascente nao e preciso pedir o menu; nao e preciso pedir um copo com agua; nunca se espera para pagar. O menu esta em cima da mesa ou a vista de todos, espalhado pelas paredes do restaurante; um copo com agua fresca e a normal oferta de boas-vindas; se pagar para viver e um ultraje para o ser humano, esperar para pagar e o ultraje para o cliente. E no Japao o cliente e um ser divino, tratado de forma impessoal: a unica forma de evitar a solicitacao do livro de reclamacoes. (Nem estou certo da existencia desse livro).

Nao ha empregados com maus humores ou sindromas de preguica, nao ha trabalhadores atentos ao telemovel ou a televisao, nao ha… pessoas do outro lado do balcao. Sao formados para funcionar como maquinas. E as maquinas ate nos vencem a jogar xadrez…

Os empregados do hotel em que estou hospedado querem saber como prosseguem os meus estudos de tagalog. Tratam-me por Tiago; como um amigo. Param o trabalho para falar comigo. Ja nao sou cliente, passei a fronteira do profissional para o pessoal. Eu adoro passar esta fronteira: nunca pago taxas aldandegarias nem tenho de mostrar o passaporte. Mas, no momento em que algo acontece que sinto que deva reclamar, a barreira da amizade interpoe-se: "Entao Tiago, relaxe, somos amigos".

Agora entendo a forma robotizada com que somos atendidos no Japao. Em trabalho nao deve haver tempo para conversas extra-trabalho, logo nao ha relacao pessoal. Talvez so o Japao o consiga a nivel nacional.

O Japao nunca mistura nada. Nao ha jogo de cintura nem sorrisos francos. O que e e o que e. Negocio e negocio. O cliente e Deus. Conversa e conversa. Amigos sao amigos. Fim e fim.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

O maior assassino da Historia da Humanidade

(pontuacao... paciencia p.f.)


E tido como dado assente que o maior assassino da Historia da Humanidade usava bigodinho ao meio. Serio caso clinico, o Sr. Adolfo, no seu delirio ariano, achava-se no direito de moldar as mentes das suas gentes para gasificar seres humanos por nao considerar que estes eram dignos de viver, quer pela cor da pele, o tamanho do cranio, o local de nascimento ou religiao.


Admito que julgar e um mexerico cruel, e mais o e julgar quem matou mais, quem foi mais longe nas atrocidades, nas ilusoes das mentalidades. Apenas pretendo expor a Historia, a verdade.
E a verdade e que se a Gestapo cometeu crimes contra a Humanidade, o Exercito Imperial Japones cometeu a dobrar.

O Japao manchou a historia do sec. XX da maioria dos paises Asiaticos. Apos o termino da enclausura ao arquipelago subjugada as ordens do Shogunato, o novo Imperio procurou alargar o seu territorio. O que o Japao fez, foi, no fundo, uma mera copia dos movimentos ja efectuados em epocas passadas pelas restantes potencias internacionais.

Acreditanto que o solo japonês era sagrado, que nao merecia a presenca dos barbaros forasteiros, “inferiores a sua raça”, lancaram-se ao exterior, navegaram para o horror: Guerra Sino-Japonesa, Guerra Russa-Japonesa, Primeira e Segunda Grandes Guerras. Alem dos territorios referidos, China e Russia, o Japao dizimou inocentes – civis e militares (os militares nao sao tambem inocentes?) – nos territorios da Coreia, Filipinas, Indonesia, Mianmar, Singapura, Hong-Kong e Malasia.

O Massacre de Nanking e um exemplo documentado do leque de insensibilidades: experiencias em corpos humanos, enterro de pessoas vivas, tortura de prisioneiros de guerra, canibalismo, trabalho forcado, violacoes.
Palavras do historiador C. Johnson: Podera nao fazer sentido tentar definir qual foi o agressor mais cruel da 2GGuerra, se o Imperialismo Japones, se o Nazismo. Ambas as nacoes destruiram os paises que conquistaram numa dimensao monumental; no entanto, as barbaridades cometidas pelo Japao foram mais, e durante um periodo maior, que as dos Nazis. Ambos assassinaram e escravizaram milhoes, exploraram-nos como trabalhadores forcados – e no caso dos japoneses, como prostitutas forcadas para as tropas da linha da frente.

Uma das razoes que explica o comportamento selvatico das tropas niponicas foi o tratamento extremo imposto durante a formacao militar. Tal tratamento incluia uma lavagem cerebral. Os soldados japoneses passavam a acreditar que o inimigo era um barbaro que iria violar as suas familias e que mataria todos os prisioneiros de guerra. Para o soldado niponico era uma honra morrer pelo Imperador, como para o samurai era uma vergonha nao morrer pelo seu amo.
Esta ideia fabricada nas mentes de muitos jovens japoneses incitou a morte de muitos deles. Os Kamikaze, como ja referi neste espaco - nao eram suicidas mas sim vitimas da obediencia; por outro lado, milhares de soldados da infantaria suicidavam-se antes de serem capturados – e assim poderem ser salvos da demencia – pelos soldados americanos ou asiaticos. E facil concluir, mas nao devo deixar de resumir, que isto significa que o Exercito Imperial Japones ordenava as suas tropas a morte do inimigo, e ainda matava as suas proprias tropas.

Obviamente que o sentimento de remorso percorrera durante eras as gentes do Japao. Ha, pelo mundo fora, sobreviventes da Segunda Grande Guerra. Nao foi ha assim tanto tempo. E e admiravel que num pais que tem no seu curriculo recente este perfil de violencia, se vive actualmente numa harmonia inimaginavel comparativamente a outros lugares que nunca fizeram parte de guerra entre nacoes.
Pede-se muitas desculpas pelo vexame japones no sec. XX, pede-se muitas desculpas, pede-se sempre desculpas. Acho possivel que este repetitivo sentimento de culpa do Japao contemporaneo tenha sido em parte desencadeado pela imagem deixada pelos infames crimes de Guerra na consciencia moral do povo japones.

Mas nao se deixe enganar quem le estas linhas, pois nao e minha intencao concluir desta exposicao que o maior chacinador da Historia foi o Imperio Japones. Nao se deixe turvar pelos preconceitos. Eu ajudo: some-se as centenas de anos de perseguicao heretica e inquisicao presentes na cronologia da dita Humanidade, e nao se espante em descobrir que o maior assassino da Historia foi a Igreja Crista.
Vil ironia, pois a ironia e quase sempre negra, de a cruz crista, onde esperou a morte Jesus Cristo, se ter tornado um simbolo armado, um culto de opressao psicologica. E que com a crucificacao de Jesus Cristo, morreu tambem um dos ensinamentos que o mesmo defendia: Não matarás.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

A multiplicidade do Hai

(ao telefone)

Moxi-moxi? Estou sim?
Ha, hai! Ah, ola!
Hai... Sim...
(pausa)
Hai. Estou a ouvir.
(pausa)
Hai? O que?
Hai, hai. Ah, ok, ok.
Hai! Entendi.
Haaaai. Adeus, vou desligar.

Sábado, Outubro 13, 2007

De outra perspectiva

(nada a fazer em relacao a pontuacao...)

Vizinho do arquipelago japones, tomo nota mais facilmente das diferencas descomunais que existem entre o Japao e a Asia, entre o Japao e o Mundo.
Nessas diferencas, obviamente, existem vantagens e desvantagens.
As vantagens sao todas as situacoes que me recalcam a infancia. Volto a ter a oportunidade de fazer amigos em poucos instantes, de saber se a pessoa gosta de mim ou se nao esta contente por me ver, de ver em cada farda uma pessoa, de entrar no café e ver a empregada a cantarolar a musica na radio; de poder comer ao ar livre; de me fazerem perguntas porque querem saber as respostas; de brincar com as criancas; de voltar a entender o que se passa a minha volta; de voltar a sentir o que se passa a minha volta. Enfim, volto a ter aquilo que me e natural, aquilo em que nasci. (porque os filipinos sao os latinos da Asia)

As desvantagens, tal como as vantagens, sao tambem muitas e gritantes. Concentrar-me-ei em duas delas, sob o tema da disciplina.

Principalmente nas cidades de Osaka e Toquio, ha um numero de muitos zeros de vagabundos, moradores de rua, ou outro eufemismo qualquer. Mas no Japao estas pessoas nao mendigam. Nao estendem a mao. Porque da mesma forma que nao querem ser incomodados enquanto leem os seus livros ou varrem o seu espaco de chao, tambem nao incomodam os transeuntes com o maior acto de humilhacao perante o capitalismo.
(Nas Filipinas, so durante a estadia na miseria da capital e que me pedem dinheiro. Eu digo sempre que nao. Uma moeda, duas moedas: se nao lhas dou nao morrem de fome; se lhas dou a vida de rua continua. Mendigar nao os tira de onde estao. E os vagabundos japoneses sabem-no.)
Por outro lado, e sem acreditar que esteja obrigatoriamente ligado ao sub-desenvolvimento, esta a questao do lixo. Um dos gestos que mais me surpreende sempre que deixei o territorio japones e ver pessoas a deitar lixo para o chao. O Japao e dos paises que mais lixo produz, mas os seus residentes colocam-no no lugar devido. E algo que se tornou tao natural para mim que me esquecera que muitos paises do mundo se parecem uma grande lixeira. E porque? Nao e porque nao haja caixotes do lixo, porque no Japao tambem nao os ha! E por falta de disciplina. E a disciplina nasce na educacao
(as criancas japonesas sofrem... mas por sofrer desde rebentos, suportam mais no futuro)

Antes achava que nao valia a pena lutar contra o flagelo do lixo. Que era um esforco inglorio. Pensava deste modo: se eu me preocupar com o lixo, mas se mais ninguem se preocupar com o lixo, o mundo vai continuar sujo.
Ha uns anos atras, mudei de ideias: ha sempre tempo de mudar.
Nao quero saber dos outros, ponho o lixo no lugar (ponho sempre e todo o lixo no lugar); nao deito a beata ao chao; nao me vingo do recibo deitando-o ao chao.

Se a populacao do mundo pensar como eu pensava antigamente, o mundo sera cada vez mais uma imundice. Se pensar como eu penso agora, sera um lugar limpo, um lugar de respeito para com os outros, para com o mundo, logo para com o proprio individuo.
Um lugar que de tao limpo muitos nao acreditam poder existir.
Quando cheguei ao Japao, confirmei que e possivel a existencia desse lugar. As pessoas levam consigo o lixo que fazem, guardam as beatas em cinzeiros portateis. Porque afinal o lixo nao e da terra, o lixo e de quem o faz.
Quem nao acredita que e possivel e porque ainda nao visitou o Japao.

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

Migração

(com erros de ortografia e pontuacao)





Não fazia ideia do quanto necessitava de ferias.
Descansar do trabalho, da metropole, da cultura japonesa. Parar.
Toquio absorve-me. Esqueco-me do resto do mundo. E estar noutra dimensao. Esqueco que o mundo deixa criancas morrer a fome, e eu faco parte desse mundo.
Em Toquio os minutos sao contados e a vida passa ao correr de cada minuto. Dou importancia ao tempo e ele esgota-se em mim. E assustador.
A cultura japonesa seca-me. Trabalhando e convivendo com japoneses torno-me eu tambem num bonsai. Amarrado as regras e a exigencia de harmonia.

Uma semana de ferias nas Filipinas facultou-me espaco e tempo – esse matrix onde achamos que respiramos. Sozinho e em silencio, caminhando na praia olhando o inacreditavel oceano, pude observar-me. Distanciei-me do meu eu no Japão e analisei-me: viver em Kagurazaka e confortavel. Habituei-me. Cai na rotina em Toquio.

Estou pronto a voltar ao Japão para mais um periodo de trabalho e olho no relogio. Levo apontado, como sempre, memorandos. Recados para mim proprio. Se tu proprio. Fala ingles sem usares o sotaque japones. Nao des tanto de ti, porque um ramo do bonsai sera cortado. Tenta distanciar-te e estar consciente dos actos. Sorrir. Disciplina. Gastar menos dinheiro em alcool. Continuar a respeitar os outros. Deixar-me ir.

Deixo-me ir…
2 de Outubro de 2007, Aeroporto de Narita 13:00
Aterro. Aos primeiros passos no aeroporto volto a escutar a tranquilidade do silencio (que no Japão tanto diz). Proxima etapa, burocracia. O poder dos governos. Uma obrigação, ou nao seremos cidadãos. Deixo-me ir.
Hesitam em carimbar o passaporte. Perguntam-me porque escrevi na ficha de desembarque que pretendo ficar por dois anos se nao tenho visto de trabalho. Explico que uma empresa me vai facultar o visto e quando o tiver inicio o trabalho. E estranho mas e verdade: ao mesmo tempo estou a mentir (porque ja trabalho para essa empresa) e a ser honesto (a empresa ia mesmo patrocinar o meu visto e assim ficaria legal).
- Devia ter emitido o visto antes de vir. , dizem-me do outro lado do balcão.
Sou levado para uma sala onde preencho um questionario em portugues. Extenso e detalhado. (Bem-vindo ao Japão )
Espero e espero. Pelo tempo e pelo sim.


Não.


O senhor da Imigração não me olha nos olhos (Bem-vindo ao Japão). Fala para o tradutor observando as suas proprias mãos. As palavras saem-lhe confiantes, e a cara so expressa trabalho. E implacavel. Frio.
- O problema de teres vindo sem visto nao e meu. O erro foi teu. Nao te posso deixar entrar. Fazes o visto e depois podes entrar.
Não aceita que lhe de explicaçoes pois sabe que não vão mudar nada. Nao me da qualquer hipotese de argumento nem permite a ele proprio qualquer relance de sentimento.
Da-me a escolher: aceitar a decisão ou recorrer ao Ministerio da Justiça (O poder dos governos).
Eu sou um reinvindicador por natureza. Reinvindico de mim proprio e sem saber porque.
Nesta situacao controlo as emoçoes e raciocino com pragmatismo. Sei bem o que significa um Não no Japão.

Sinto-me um criminoso (cometi um crime auto-infligido contra o meu proprio caminho). Tenho escolta pessoal e nao posso sair de uma area restricta do aeroporto. Onde estou? E a primeira vez que saio de um lugar onde nao cheguei a entrar.

A decisão mais barata e deixar o Japão nesse mesmo dia. Para onde? O dinheiro e um problema. Não tenho o suficiente para voltar a Portugal. Nem dinheiro nem vontade. Não e desta forma que quero regressar.





Voo novamente para a proximidade das Ilhas Filipinas. Vou esperar a burocracia.
Subita e forçadamente abandono o trilho por onde seguia. Mas o tiagointokyo continua a existir. E em Toquio que esta a minha casa, a minha roupa, as minhas camaras, os meus projectos. Eu estou la. Fui apenas deportado, transladado de mim temporariamente.


Em Manila, onde escrevo estas linhas, continuo zonzo do episodio. Ainda nao o digeri.
Espero que o tempo turve a memoria e anestesie o sentimento.

Eu nunca fui esbofeteado. Nao acredito na violencia por isso nunca levei um murro na cara. Sinto, embora, que deve doer muito menos do que a maneira como o Japão nos bate. Sem emoçoes e sem musculo. Nem sequer me tocou mas atingiu-me com muito mais violencia.



(PS: Continuarei a escrever regularmente sobre o Japão, infelizmente, sem a forca complementar das fotografias. Mas uma vantagem: estar distanciado)

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Trabalho é conhaque

Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque.
Trabalha o conhaque depois do trabalho.
Conhaque sem trabalho dá trabalho sem conhaque.
Conhaque é trabalho, trabalho é um baralho.
Sem conhaque não há trabalho, sem trabalho não há conhaque.
Mas sem trabalho o conhaque não sabe a conhaque. Logo o conhaque sabe a trabalho.
O trabalho sabe a trabalho.
O trabalho é conhaque: Design Festa - Everyone is an artist!

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

Poucas vezes se diz Sayonara em Japonês

Não gosto de despedidas. Não me considero especial por isso, pois como eu há muitos. Prefiro o até breve “gyaneee”. Com essas coordenadas fiz questão de estar presente no último jantar do compincha Pedro. Afinal ele fez questão de apadrinhar o meu primeiro jantar em terras nipónicas. E que baptismo foi. Muito mais emocionante e enriquecedor do que o com a água benta.
Na primeira noite em Tóquio fui directo à alienação de Roppongi, guiado pelo Pedro e coadjuvado por esse perigoso triângulo equilátero de álcool, japonesas e jet-lag.


Atalho sempre pela expressão “aprendo com toda a gente”. E com o Rodrigues-san aprendi muito. Via como uma fotocópia cultural de mim próprio tinha aglutinado em tão pouco tempo os valores profissionais do Japão, o aguentar samurai das emoções, e partilhei com ele essa vã tentativa de nos abstrairmos do que (não) aprendemos no princípio da vida, do peso trapalhão de nascermos portugueses. Mas aos trambolhões também se caminha.

Depois de dois anos e meio de Tóquio, o Pedro volta à Europa, crescido de ainda não tem noção de quê. O efeito nipónico é como os sismos: podemos estar a dormir no momento do abalo maior, mas à posteriori sentimos – e de que maneira – as réplicas.

Eu e o Pedro conseguimos algo que muitas pessoas não conseguem: comunicar.
Diz-me: “Depois do Japão tudo vai ser mais fácil.” Eu discordo logo de seguida (a discórdia é o baloiço da comunicação). Digo-lhe que na minha opinião o Japão só parece complicado para nós por ser tão simples. Chegar ao simples é mais complicado do que chegar ao complicado!
Dou-lhe exemplos: fui à Malásia, quero saber o preço do bilhete de autocarro e há vários preços, incertos e mutáveis de hora para hora; em Marrocos quero deixar o autocarro e sou abalroado por pessoas que não tiveram a minha oportunidade de aprender um pouco de civismo; toma cuidado em Londres caro Pedro, que um fanático embriagado pode revoltar-se barbaramente por tu seres de um país de futebol. Visto bem as coisas, é mais fácil ficar desfigurado na Europa (ou noutro lugar qualquer) do que no Japão. “Depois do Japão tudo vai ser mais fácil.”
A janela japonesa não “quer abrir”. Vai à força? Não. Tem truque. Para abrir basta um jeitosinho muito muito simples, muito japonês, pensado, não empurrado.

Um gyaneee para a única pessoa com quem nos últimos meses comuniquei no código de nascença, com o qual se escreve a palavra "amizade".

Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Tudo p'rá piscina (que o Mundo vai acabar)

Calor, piscina, bóias e ondas fabricadas. Não necessito escrever mais.
O vídeo escreve por si.

No auge do exotismo até os meus colegas de trabalho, japoneses, se impressionam. Eu digo-lhes: "Vejam isto e ficam a perceber por que razão os estrangeiros se interessam pelo Japão." Aqui.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Let's dance

Ao ritmo do shamisen, das flautas e dos tambores, a energia do matsuri percorre as ruas habituadas ao silêncio. A letra da música é repetitiva: "odoru aho ni miru aho; onaji aho nara odoranya son son!"
"É tolo aquele que dança, e é tolo aquele que observa; se ambos são tolos, o melhor é dançar!"

A música é sempre a mesma e assim ninguém perde o ritmo. O que interessa é dançar.



Dance dance dance, aqui.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

Kim e o Zoo, viagens e outros zus

Dizem que o Mundo é pequeno, e dizem bem. Então digam-me agora também, de que tamanho é a maior cidade do Mundo.
Kim ainda não é fotógrafa profissional no sentido da independência económica. Sem dúvida que é uma profissional na dedicação e talento. Diz-me que a próxima exposição já terá as fotos dos Zoos. O jardim zoológico é o seu lugar fotográfico. Há meses que percorre os Zoos da Ásia fotografando os animais, os leões tristes, os chimpanzés que observam as pessoas, o rato que aguarda a morte dentro da jaula da serpente, as crianças que alimentam os elefantes, quantos temas a explorar num só lugar? Cruzámos os nossos caminhos no Aeroporto de Narita, na fila para um embarque sudeste asiático. Dei-lhe a minha vez, porque me educaram que em primeiro estão as senhoras. Um gesto de uma educação. Para Kim, que ainda hoje brinca com o assunto, foi um acto de engate. Quando digo a Kim, por exemplo, que a sua amiga é muito bonita, Kim volta a insistir com a crónica do engate. Eu tento explicar-lhe que há uma diferença entre o engate e ser latino.

A vida é um dominó de sequências. Sucedeu que nos encontrássemos novamente na carruagem do comboio que faria a ligação Aeroporto – Estação Central de Kuala Lumpur. Eu estava de férias. Precisava de férias do Japão. Quando vi Kim entrar na carruagem as palavras saíram sem controlo, porque do espontâneo se faz o latino:

Nihonjin desu ka?” disse a mesma pessoa que precisava de férias do Japão.

Oh falas bem japonês.”, disse Kim em japonês, tal como um japonês, com surpresa.

Esforço-me.”, disse eu, antes de Kim responder finalmente à pergunta inicial: “Nasci coreana mas agora tenho passaporte japonês.” E a partir daí começámos a comunicar principalmente em inglês. Esporadicamente em japonês. Muitas vezes sem necessitar sequer de falar.

Caímos de súbito num carrossel de coincidências: ambos carregávamos o peso da paixão pela fotografia; descobrimos que somos vizinhos em Tóquio; que ambos jogamos futsal regularmente nos campos de Shinanomachi; que ambos somos uma mistura, Kim, de Coreia e Japão, eu, de Portugal e de ainda-não-sei-de-quê; e ao saber isto, no auge do carrossel, Kim reage jovial por poder finalmente conhecer um natural da terra em que ela e seu marido um dia sonham viver.

O marido de Kim sonhou um dia que era um marinheiro de Portugal dos tempo dos Descobrimentos. Sori acredita que, noutra vida, foi esse marinheiro. O seu inconsciente levou-o a pensar consciente, e juntos, Sori e Kim já visitaram por duas vezes o meu país. Adoram o vinho, o bacalhau, e o Alentejo. Logo ali, naquela carruagem transformada por momentos em carrossel, que prosseguia entre bananeiras ao vento, nos tornámos amigos. Um acto instantâneo, como tirar duas peças de um saco de puzzle e encaixarem assim, tão natural como as bananeiras ao vento.

Que foi para mim encontrar Kim? Confirmar que viajar é a melhor Universidade? Que é o lugar que nos ajuda a ajustar aos nossos desígnios? E que foi para Kim encontrar-me? Ter um jogador estrangeiro no seu clube de futsal? A certeza da ligação a Portugal? Uma motivação para alcançar o sonho do casal?

Será destino? Quantas perguntas sem resposta existem? O destino não é só uma sequência de acontecimentos? Como as peças do dominó, umas caem, outras ficam de pé. É tudo tão acidental como eu ter sido o primeiro espermatozóide a chegar ao óvulo da minha mãe.

Destino… Fatalidade. Fado. Portugal. Não é por aqui o caminho. O caminho é em frente! Há que descobrir novas peças de dominó. E Kim descobriu a sua dedicação ao Zoo. Admiro o acidente da nossa amizade e admiro muito a sua dedicação ao Zoo. É um dos seus focos.

Eu desoriento-me por ver tudo desfocado. Ainda não cheguei acolá e já mudei de rota para ali. É só isso que eu sei fazer, deixar-me ir na corrente, viajar. A tal ponto que superei o meu ídolo de infância, Willy Fog, que precisou de 80 dias para dar a volta ao Mundo. Eu só precisei de duas horas. Bastou-me ver o filme Baraka sentado no sofá.

Mas na semana passada bati de novo o meu recorde. De volta ao campo de futsal, percorri quilómetros de divertimento, viajei por entre jogadas de amizade, cheguei à Estação Central das recordações. Dia 16 de Agosto, lá estarei em casa do casal amante de Portugal, para ver o céu de Tóquio explodir de artifício, acompanhado de vinho do… Alentejo. Será mais uma viagem de muitos quilómetros.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

Um gajo que se adapta

Perguntar faz bem, apesar de nem tudo tenha de ter explicação. Porque diminuiu o ritmo de me escrever aqui?
Não é porque ande ocupado. A ocupação é relativa. Há quem se ocupe no sofá invadido pela caixinha da demência. A ocupação é relativa. Comparando o meu diário com a vida de um salaryman da capital, que destrói horas todos os dias em viagens suburbanas, de pé, tentando ler o jornal... Ou tentando adormecer, descansar antes de um dia igual ao de ontem, sem tempo para fazer de marido, sem tempo para ver a filha crescer… Não posso andar ocupado. A ocupação é relativa. Há tempo para tudo, até para sobreviver.

A fonte de inspiração não secou. Musas não faltam. O que falta é entender algumas hipotenusas. O poço das ideias está cá, e ao contrário do globo, tem muita água potável. E essa água vai afogar de trabalho algumas editoras no meu país. O trabalho de não dizer sim. Ou a tarefa ainda mais árdua de não dizer sim nem não.
Será desilusão para com o Japão e sua gente? Naaaa, desilusão não é certamente. Não falta do que escrever, do que criar lixo cibernético. Se bem que no meio do entulho sempr’alguém encontra um valor a que se associa: ou à amizade, ou ao fascínio pelo hilariante, ou ao vício de ler os outros.
Dei conta de que o que tem reduzido o ritmo frenético desta minha exposição em forma de blogue foi o que se pode chamar de "fenómeno do encaixe". Do habituar-se.
Ainda bem que o meu nível de japonês é miserável, porque se não o fosse e o reflexo no espelho não olhasse para mim, ainda me convencia que me havia tornado japonês. Acontece a muitos bons estrangeiros. A vénia pega-se. Pensar em japonês é surreal mas sucede. A surrealidade do Japão também não deixa de suceder. E por navegar no meio dela me esqueço de que o Mundo lá fora, longe desta ilha amaldiçoada por pontos de interrogação, é que é o Mundo real. Onde as pessoas discutem nas ruas. Onde as pessoas discutem nas ruas sujas. Onde as pessoas discutem nas ruas sujas porque as pessoas deitam piriscas para o chão. Onde as pessoas fumam os sentimentos umas das outras. Onde o cliente é tratado como delinquente. Onde as mulheres falam como homens. Onde subir ao 47º andar não é normal. Onde não há ruas com dois sentidos para peões. Onde a desordem é a ordem.
Sou um rapaz adaptável. Um gajo que se adapta. E convenci-me que por cair na rotina do Japão ser a minha casa, sou pertença dele próprio. Como os olhos que só se abrem em viagem. Eu não conheço todos os monumentos da minha terra. E aqui já vi tudo o que há para ver. Lá estou eu convencido… nem tudo! Há que dispertar com os inconstantes beliscos psicológicos que me recordam quão verde sou de Japão.


Vou voltar ao amadurecer. Como aprendi do Japão, o que se diz que se faz, faz-se. Faz-se bem. E no momento X.
“Amanhã voltarei.“ Com um texto sobre amizades que não têm explicação. Se não voltar amanhã, foi porque bebi demais nas festas de Kagurazaka. E não serei incumpridor por isso. É apenas o sinal de que ainda estou verde de Japão.
O melhor será dizer: “Voltarei.” É mais certo. Mais japonês.

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Matar o tempo a brincar às bandeirinhas

Terramoto

Hello Kitty
Giro ou Assustador
Uncle Sam wellcome to Japan

Moxi Moxi
Dragon Ball
O prego que sobressai logo será amassado
Self-portrait

Carruagem women-only
O forasteiro
Smile
Yayoi Kusama

Quinta-feira, Julho 12, 2007

O perfil do forasteiro

Cada vez mais japonesas casam com ocidentais. Em Tóquio, onde se concentra a maioria imigrada, é usual ver-se os novos casais a passear com o logótipo da diferença estampado no entrelaçar dos dedos.
Mas é essa diferença que torna o estrangeiro um raio de liberdade para as senhoras japonesas. Ao contrário de muitos maridos japoneses, os ocidentais não as tomam por meras empregadas e por natureza querem que as esposas avancem na carreira. Por outro lado, os ocidentais escolhem as japonesas porque, além de poder dar jeito em termos do visto, há também o importante factor do marido-ser-mais-do-que-VIP. E a beleza exótica, para o leitor desatento.

O futuro pertence aos mistos. Será um eterno cruzamento de raças até à extinção.

Há cerca de dois milhões de estrangeiros registados, um recorde que deverá continuar a ser batido de ano para ano. O Japão conquista os estrangeiros e também sua a vontade de ser estrangeiro. Criado para variar entre o cinzento claro e o cinzento-escuro, o arquipélago recebe agora cores de todas as tonalidades, que, não tendo escolha, têm de aprender a diluir-se no espectro cinza.

As portas estão abertas para professores de inglês. Qualquer cidadão do mundo que queira viver no Japão e domine a língua inglesa, só necessita de duas liberdades: a da decisão e a de comprar o bilhete de avião.

Nas fábricas ocupam-se os brasileiros. Daí que hajam Brasiltowns com restaurantes como a “Cantina Quero Mais” ou a opção português nos Multibanco. (Português brasileiro, porque para “sacar dinheiro” em Portugal não é preciso ir ao Multibanco)

O contingente chinês que oferece massaji massaji concorre com os africanos vestidos de impertinência que convidam os gravatas a ver as jovens louras no espectáculo do despir. As empregadas filipinas tratam dos filhos dos embaixadores e dos engraxadores dos embaixadores. Já os soldados americanos não são para aqui chamados.
É acessível para um ocidental conviver no Japão carregado em conversas por outros compatriotas. Mas estas pessoas nem se dão conta de que não vivem no Japão, de que nunca deixaram o Ocidente.
Para outros, de que sou exemplo, que mergulham de cabeça na cultura sem saber sequer se tem água, a relação com o Japão é como a maré. Às vezes a bandeira está verde, é o lugar perfeito, tudo limpinho e muito respeito. Mas a maré conturba-se: a diferença com que nos tratam, ao não permitir a entrada no restaurante, os esgares de revolta; a indiferença com que nos emocionam, ao permitir a longinquidade das relações, os ares de solidão.
Há muito que deixei o ocidente, mas o ocidente nunca me deixará. Faz parte de mim, sou ocidente. Mas quantos ocidentais sofrem por quererem a todo o custo ser oriente. O louro europeu de dois metros, tamanco vestido de kimono, que se orgulha de ser um ás com os pauzinhos mas não diz arigato porque do sotaque flúi um eirigueito, domina todos os saqués, faz muitas vénias e pede sempre desculpas. Pobre tamanco, a costurar o objectivo de ser considerado igual aos japoneses... Nunca o será, por mais vénias que faça e por muito bem que fale japonês.
O melhor é rir.
É o que eu faço de cada vez que os japoneses fazem ou dizem algo que me desperta a condição de forasteiro. E no final de cada riso, apercebo-me de que, no fundo, estou a rir de mim próprio.

Sexta-feira, Junho 29, 2007

Teorias sobre o Japão em Pinturas Mentais

Há quem diga que vivo de imagens; mas ninguém pode dizer que eu não vivo no Japão e por não haver país menos conceptual, usarei a pintura para o apresentar.

Vulcões Salaryman, aguarela
Viajo no metropolitano de Tóquio, olho em volta e, qual desvario kafkiano, os salaryman que se deslocam impávidos na rotina transformam-se de súbito em pequenos vulcões.
Desta fusão geo-humana surge um ser que controla os próprios instintos animais. Os japoneses fervilham como vulcões, mas têm o poder de manter o magma dentro deles até arrefecer. Vejo em cada salaryman um vulcão que embora não esteja extinto, não entra em erupção.

As tigelinhas de arroz, pintura a óleo
Foi também na ferro-via que se me coloriu repentinamente e sem explicação a seguinte tela de sinapses: cabe às japonesas a mesma descrição que se pode fazer à tigela de arroz branco (tão importante no quotidiano culinário). Ora, não se fica esfomeado nem muito cheio, satisfaz o suficiente; o arroz é saudável e sempre com bom aspecto, a tigela elegante e bonita; o sabor é sempre igual e difícil de distinguir, mas daí que não enjoe e seja apetecível a todas as refeições.

Biru kudasai, serigrafia
O álcool é o elixir da verdade, ninguém desconfia de um embriagado.
O povo japonês não pretende ser malicioso mesmo quando mente, o que pretende é ser simpático. E é com a potência alcoólica que o sol finalmente nasce para os japoneses poderem relaxar da formalidade da simpatia. (E os vulcões soltam a lava suavemente.)

Giro ou assustador?, acrílico
Este é um quadro de arte naíf: os japoneses simplificam a variação das suas reacções àquilo que acham muito giro e àquilo que lhes mete medo. Variam portanto entre o Kawaii! (giro) e o Kowai! (assustador). Do “a” ao “o” a diferença é mínima mas o resultado da sua utilização semântica é completamente oposto.

Estas imagens foram pintadas por mim, mas teorias há de outros olhares interessados, que fui escutando desde que meus tímpanos filtram sagazes o assunto Japão.

Peixes na água, aerografia
Donald Richie já reside em Tóquio e escreve sobre o Japão ao tempo que perfaz o dobro da minha idade. Numa entrevista-aerografia que folheei há uns meses, Richie diz que “perguntar a japoneses sobre o Japão é o mesmo que perguntar a peixes sobre a água”. Não se apercebem onde nadam nem porque o fazem, mas sabem nadar.

A caixa de comida, guache
Um neozelandês com quem conversei uma vez, deu-me a observar o seu quadro pop-art: “podemos perceber o Japão se olharmos para a caixa de comida obento, tudo está separado, ingrediente por ingrediente, nada se mistura”.

(Inspirado pela sua pintura, logo criei uma imagem sob essa influência, mas muito minimalista.
A bandeira, guache.
A bandeira do Japão, duas cores, simplicidade. O vermelho é o Sol, um círculo perfeito sobre a pureza branca.
Ali é vermelho, aqui é branco. Aqui é assim, ali não. Japão.)

Sem título, carvão
Para finalizar, uma pintura a carvão que ilustra genialmente este país, que me foi descrita por um compatriota, que havia escutado de outro compatriota.
Esta pintura é uma obra-prima, a preservar no Museu das Teorias Sobre o Japão em Pinturas Mentais. “Os japoneses são cem milhões de bonsais.” Recortados desde os rebentos, crescem deformados de personalidade, feitos para serem miniatura: o provérbio “Deru kugi wa utareru” completa esta imagem, “o prego que sobressai logo será amassado”.

(Decidi não colocar fotografias a acompanhar este texto e a razão é tão simples como a bandeira do Japão: o que se tratou neste texto foi de pinturas mentais)

Quinta-feira, Junho 28, 2007

Provérbio japonês

Três mulheres juntas, barulho.



Nota: na imagem seguinte estão escritas, em idioma japonês, as palavras "mulher" (primeira linha) e "barulho" (segunda linha). Ora, o primeiro caracter da palavra barulho, é formado por três mulheres juntas.





Quarta-feira, Junho 13, 2007

Desempregado e feliz

Estive alguns meses empregado numa empresa japonesa à séria, uma experiência enriquecedora em todos os sentidos. Até para avolumar a minha alergia ao sistema da corporação, ao mundo do em prego, ao estatuto de objecto de levar marteladas.

Agora estou desempregado cinco dias por semana na galeria do Design Festa. O meu Sábado virou Quarta-feira e o sétimo dia é à Quinta. Realizo uma daquelas fantasias de cada um, faço o que gosto e ainda me dão de comer. Nesta empresa só usa gravatas quem quiser, não pela formalidade do trabalho mas para ajustar o rigor de vestimentas extravagantes. (A gravata não trabalha por ninguém, nunca deixará de ser um pedaço de tecido.)

Usuki-san é uma chefe dos anos 70: fã incondicional de Rolling Stones, não perde um único concerto de Iggy Pop no Japão. É ela a fundadora deste espaço onde qualquer pessoa pode expressar a sua originalidade e qualquer originalidade, já que como dizia o único génio que existiu no meu país, “Viver não é necessário. Necessário é criar.” Usuki-san acreditou em mim e dá-me a liberdade para essa necessidade, daí que eu me sinta desempregado, pois não há um dia que eu acorde sem vontade de ir trabalhar.

Também para as autoridades do Japão eu estou no desemprego. É o que revela a burocracia da minha condição de visitante temporário, que expira ao fim de cada três meses e não permite auferir ordenados. É irónico ou talvez não: para andar feliz preciso de estar à margem da lei.

Em breve esgotar-se-ão os três meses, mas basta-me uma maratona de poucas horas na cidade que coroou Rosa Mota para regressar à temporalidade feliz do desemprego.

(Não significa este texto que quem o escreve domine esse tema oculto que é a felicidade. Apenas anda entretido a fazer o que gosta de fazer. A felicidade pode não andar muito longe disso.)

Quarta-feira, Junho 06, 2007

Hoje fiz um amigo

Cumpria um recado da chefe, fazer promoção da empresa. Na Associação de Design do Japão, fui atendido pelo Wakamaru, um menino vestido à maneira: com a camisola amarela da prova de futurismo.
Olhava-me nos olhos, abanando a cabeça, como que dizendo: "Tu és diferente". Eu li-lhe os pensamentos e comentei sozinho: "Gosto de ti por seres diferente".

Depois de o chamar pelo nome, o Wakamaru veio ligeiro colocar-se à minha frente e num japonês que, como sempre, deduzi do contexto, convidou-me a fazer alongamentos com ele. Recusei, não por antipatia ou timidez, simplesmente porque o Verão já avisou que está a chegar e a humidade é suficiente para aquecer o corpo.

Mas o Wakamaru lá fez os seus alongamentos. Espero que bem, não vá o meu novo amigo ter um estiramento muscular.

Quarta-feira, Maio 30, 2007

Imagens narrativas VII - Estacionar

A necessitade de espaço e o engenho de criar espaço. Mais palavras para quê...

Sexta-feira, Maio 25, 2007

Nas ruas de Kagurazaka

Em Kagurazaka viaja-se ao velho Japão em pleno coração de Tóquio. Este bairro é uma colina, mas se Tóquio tivesse baixa, seria aqui. O declive é a imagem de marca que faz deste local um ícone da capital.

Kagurazaka, a ladeira-do-deus-da-diversão, está repleta de ruínhas pedonais paradas no tempo. As casas tradicionais que circundam os quelhos são tratadas como bonsais, por onde deambulam em gordas boémias gatos sempre desconfiados.

Mantém a atmosfera tradicional, apesar das invasões francesas. Os expatriados francófonos escolheram este lugar para viver, presumo que pelo seu síndroma do orgulho. Não escolheram mal não senhor.

Até a banda sonora me reporta ao mundo encantado de Amélie Poulain, mas é na fábula de Kagurazaka que eu vivo acordado. Em miragens avisto guerreiros samurais, de kimono passam gueixas à minha frente... esfrego bem os olhos e apercebo-me que não é uma ilusão: nas tortuosas vielas de Kagurazaka ocultam-se as últimas gueixas da capital.

Viver é o que fazemos do nosso habitar: acordo bem-disposto com os ecos infantis que ultrapassam a janela do meu quartinho; com o circo das traquinices perante os meus olhos, tomo o pequeno-almoço; vou ao supermercado domingueiro, caminho a ladeira cima a baixo; atalho outra vez sob o candeeiro lunar, por entre ruas desertas em paz; de regresso a casa ouço o infalível Okaerinasai! de boas-vindas, que completa a viagem ao passado. A Srª e o Sr. Saito são os meus vizinhos e senhorios. Desconfio que este casal de idosa genica não sai de Kagurazaka há muito tempo. Para quê, habitam na nostalgia...

E eu, como posso sentir saudades de casa? Pois se a minha casa é aqui, na ladeira do deus da diversão.Fotografias, aqui.

Quarta-feira, Maio 23, 2007

Provérbio japonês

Quando a pobreza bate à porta, o amor sai pela janela.

Terça-feira, Maio 22, 2007

Dez diferenças entre portugueses e japoneses

Seguirei o génio de Pessoa, recorrendo a “um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender”. O objectivo é enunciar a diferença entre o povo português e japonês. Do recurso à interpretação de acontecimentos da História e à encenação de episódios, deduzirei oposições que reflictam a disparidade entre os dois povos.
Este é um exercício interminável, que evidentemente, generaliza. Mas de maneira a compreender os pormenores de excepção, que não serão referidos nesta análise, é conveniente ter uma ideia do todo. (Só depois de saber o que é o Impressionismo é que se entendem as pinceladas de Van Gogh).

Devo dar relevância à orientação cultural dos dois povos. Os portugueses, por fazerem parte da raça latina, possivelmente reagirão da mesma forma que espanhóis, brasileiros ou italianos nos episódios que narrarei em seguida. No entanto, existem comportamentos de exclusividade lusa que sobressaem aos dos latinos. Será esta proeminência portuguesa a base da contraposição ao povo japonês. Os nipónicos, por outro lado, representam uma colheita ímpar de seres humanos, que actua de forma singular. Apesar do Japão fazer parte do continente Asiático, o arquipélago e o continente seguem diferentes caminhos no estudo da antropologia.

Decidi redigir este texto por duas razões: a saliente, porque ainda não foi feito (se o foi, não tenho conhecimento); a consequente, pelo gozo de o escrever.
Atrevo-me a enfrentar o assunto sabendo que há personalidades mais conhecedoras desta temática, pelos anos de experiência vivida no Japão. Mas como do Japão levei um forte impulso na aprendizagem do que é a determinação e o atrevimento, aqui me atrevo, sem medo.

1. Começaremos então a viagem pela diferença entre lusos e nipónicos. E por iniciarmos a viagem, navegaremos de nau. Os primeiros ocidentais a chegarem ao arquipélago do Japão foram os portugueses. Nessa sua ânsia de descobrir, ou de expandir a fé ou o império, ou até de fugir, os portugueses ancoraram em todos os cantos do globo que não tem cantos: África do Sul, Índia, Brasil, Austrália.

O Japão, por seu lado, continua a ser o país do Mundo que mais tempo se isolou no seu mundo. Foi exactamente de 212 anos o período de enclausura ordenado pelo Shogunato. Neste período, o povo japonês não abandonou o território, nem isso lho era permitido. O contacto com o exterior resumia-se à presença restrita dos missionários europeus, numas ilhotas a Sul do arquipélago.

Esta é a primeira e mais notável diferença entre portugueses e japoneses: aqueles enfrentaram mares nunca dantes navegados, estes fecharam as suas portas.

A época do berço da globalização reflecte-se na cultura contemporânea de ambas as nações. Os portugueses seguem a sombra de Vasco da Gama em aventuras inusitadas pelo Mundo fora, nas quais se valem com mestria da sua ciência do desenrascanço.
Ao invés, os japoneses, que continuam isolados por milhões de gotas salgadas, viajam frequentemente em excursão, seguindo o guia, atentos ao esclarecimento histórico do Coliseu de Roma e da Torre Eiffel. As cidades onde se erguem estes monumentos são normalmente as primeiras a serem visitadas pelos turistas japoneses e para muitos dos poucos que já visitaram o exterior, o único conhecimento que têm de fora do seu país.

2. Logo no primeiro contacto com ocidentais os japoneses evidenciaram as suas hábeis capacidades de observação. Iniciaram com os portugueses a construção da fama que têm em copiar o que os outros fazem. Mais, em melhorá-lo para seu proveito.
Foi o que fizeram quando Fernão Mendes Pinto lhes apresentou a primeira arma de fogo que alguma vez haviam visto. A espingarda foi de pronto replicada em grandes quantidades, como é relatado na obra “Peregrinação”: “O fervor deste apetite e curiosidade foi dali por diante que já quando nos dali partimos, que foi dali a cinco meses e meio, havia na terra passante de seiscentas espingardas.” Além de copiar a ferramenta que sentenciou o fim dos samurais, os japoneses aproveitaram para adaptar à sua culinária a novidade introduzida pelos portugueses de fritar peixe e vegetais, que é nos dias de hoje um dos mais conhecidos e apetitosos pratos da sua culinária: tempura.

Ora, que retiraram os portugueses da cultura japonesa? Maioritariamente deslumbre. Fernão Mendes Pinto e São Francisco Xavier foram dos primeiros a narrar as suas experiências de espanto. Mas é Wenceslau de Moraes, séculos mais tarde, que se revela como o exemplo mor da admiração passiva, aquilo a que Fernando Pessoa chama de “provincianismo português”. Wenceslau escreveu e só escreveu, limitando-se a exaltar o Japão, na senda preguiçosa e tão portuguesa de pasmar do que os outros fazem.

3. A metodologia de trabalho, que é o mesmo que dizer a metodologia de viver, revela-se, como veremos, de uma diferença atroz.
Enquanto os japoneses preparam tudo ao detalhe, os portugueses seguem a filosofia laboral do “isso depois vê-se”.
Como é de calcular, em situações não esperadas, os portugueses desenvencilham-se como nenhum outro povo no Mundo. Precisamente por ser o povo que mais cria situações não esperadas. Ou seja, só por fazer do joelho a mesa de trabalho e deixar tudo para o último momento possível, é que têm imprevistos para resolver. E daí serem os mestres das soluções em cima da hora.
Os japoneses não atrasam as tarefas, pensam previamente nos hipotéticos problemas, criam um plano eficaz e seguem-se por esse plano. Ao eliminar a possibilidade de imprevistos, não têm de conjugar o verbo desenvencilhar.

4. Mas é da capacidade de improvisar que os portugueses abrem alas ao talento, ao imprevisto, àquilo a que o outro (e nem o próprio) não está à espera. Como a habilidade de Cristiano Ronaldo, de certo aperfeiçoada com treino, mas deixada desprendida para desembaraçar um momento.
Os japoneses, ao ter tudo planificado, não fazem o que não vem no plano. É este limite à irreverência que faz com que muitos comunicadores japoneses contra-cultura abandonem o seu país. São exemplos as artistas Yoko Ono e Yayoi Kusama.
Os japoneses são formados para não contestarem o sistema e se no sistema do menu não existe o produto que pretendem, nem sequer se atrevem em pensar solicitar o artigo. Nos cafés lusos improvisa-se uma bifana no pão, mesmo que não surja na lista.

5. Vejamos de seguida como os povos em estudo cuidam de dois conceitos que, inventados pelos humanos, são cada vez mais fundamentais na era da tecnologia: o tempo e o dinheiro.

Para relatar a divergência do tratamento do relógio, recorrerei a uma simples encenação: um jantar está marcado para as 20h por amigos japoneses, e outro, à mesma hora, por amigos portugueses.
Os participantes do jantar nipónico estão no local combinado às 19h55. Em caso de atraso, por dez minutos que sejam, de pronto os amigos japoneses enviam SMS de aviso pedindo muitas desculpas pelo ultraje de instantes perdidos. Nessa ocasião, quem chegou com dez minutos de atraso notificados, desculpa-se novamente envolvido em vergonha.

No jantar entre portugueses, o primeiro participante chega às 21h. E vai ter de esperar pelos outros. Às 21h30 começam a chegar aos pingos os restantes amigos. O que chegara uma hora depois do combinado, comenta: “Então isto são horas de chegar?”. Logo é refutado por uma voz esfomeada: “Oh, então se o jantar estava marcado para as 20h nunca cá está toda a gente antes das 22h”. De facto, este argumento revela um conhecimento da cultura portuguesa de grande pragmatismo. O amigo que chegou uma hora atrasado é que é o tolo.

E porque o tempo é dinheiro…

O motor que nos obriga a pagar para viver, é tratado no Japão, tal como o tempo, com muito cuidado e amparo. Nos estabelecimentos comerciais há um pequeno recipiente que serve de pombo-correio entre o cliente e o vendedor. No Japão é deselegante mostrar dinheiro em público ou desfrutar orgulhoso de ostentação.
Os portugueses, pelo contrário, tudo fazem para mostrar a pompa. Aliás, mesmo com menos poder de compra que os japoneses, conjecturo em qual dos países será superior o número de carros topo de gama por família. É importante para muitos portuguesinhos ter o melhor carro entre os vizinhos.

Ainda no cerne do cifrão, criemos outro episódio simples: num bar, é solicitada uma cerveja.
Estamos no Japão, a bebida custa 200 ienes e o cliente só tem 199. O vendedor não pode negociar o seu produto pois é-lhe tão claro como 1+1 ser 2: a cerveja está à venda por 200, e não 199. Logo, falta um iene.
No bar português, a cerveja custa dois euros. O cliente tem dois euros e trinta cêntimos, mas esconde uma moeda de cinquenta cêntimos no bolso. A ver se pega. “Só tem 1.80?”, diz o dono do bar. “Não faz mal, fica assim, paga para a próxima.”

6. Se o caro leitor chegou até estas linhas é porque o seu interesse demonstrou paciência. Comporta-se portanto como um japonês.
A expressão japonesa “gaman suru” significa suportar, ter a capacidade de sofrer, e sobretudo, de sofrer sozinho. A paciência nipónica até pode esgotar-se no interior, mas não salta pra fora.
Os japoneses esperam pacientes na fila para o restaurante. Sabem que vão ter a recompensa de estar no restaurante que está na moda. Os portugueses vão ao restaurante do lado pois a impaciência não os permite suportar o fastio de esperar. Pelo caminho bufam e vociferam, desabafam o seu balão de inquietação.

7. Encontramo-nos agora num elevador.
Na viagem até ao 12º andar estão duas pessoas que não se conhecem. Os portugueses sentem o momento como um incómodo período de silêncio e quebram o clima falando precisamente sobre o clima. “Está frio hoje mas parece que amanhã a temperatura vai subir.”
No elevador do oriente, os japoneses gozam o silêncio e respeitam os respectivos espaços de sossego. Não têm nada para dizer um ao outro, por isso não inventam conversas em que nada de novo se acrescenta.

Os portugueses verbalizam sempre que podem, mesmo sobre aquilo que não dominam (algo que se tornou famigerado na expressão “mandar bitaites”).
Pelo contrário, os japoneses, quando não sabem de um assunto, não falam. E sabem repousar no astuto lugar do silêncio.

8. Continuemos a seguir as pessoas que iam no elevador. São homens de negócios que vão para uma importante reunião de trabalho. Os senhores doutores portugueses estão atrasados. Suzuki-san e Sakamoto-san apresentam-se cordialmente antes da hora estipulada.

Na reunião japonesa todos os nomes serão sucedidos de “san”, o instrumento de comunicação no idioma japonês que significa respeito. O sufixo é usado também com as profissões (pescador-san, médico-san). Assim, qualquer pessoa é tratada por san, independente do currículo académico ou estatuto social.

Em Portugal o instrumento de comunicação está antes do nome e muitas vezes substitui o próprio nome. O título de Senhor Doutor, Doutor ou abreviadamente, Sôtor, é também independente do currículo académico ou estatuto social. Qualquer pessoa é Doutor. Até o médico é Doutor.

9. No penúltimo ponto desta exposição referir-me-ei a um fenómeno congénito à humanidade e pelo qual presente ao longo de toda a sua História: o conflito.
A história de guerra internacional do Japão cessou após a 2ª Grande Guerra, limitando-se presentemente ao actuar doméstico dos senhores de negro, a máfia yakuza. A yakuza é a única organização que conserva a lei marcial da era dos samurais. No dia-a-dia, o povo japonês evita todo e qualquer confronto, recorrendo uma vez mais ao gaman suru: aguenta o seu próprio instinto animal. Pede desculpa, ri-se ligeiramente e abandona o local de iminente discussão.

Se, como foi exemplo atrás, os portugueses abandonam uma fila para um restaurante a bufar e a vociferar, é escusado relatar como reagem em locais de possíveis conflitos.

Por isso, para concluir, servir-me-ei de um local não conflituoso para provar a distância entre portugueses e japoneses em relação ao conflito. O cenário é um meio de transporte, o comboio. Alguém observa curioso os representantes dos nativos em estudo. O olhar incómodo provoca reacções: os portugueses exclamam: “Opá tás a olhar pra onde pá?”; os japoneses fecham os olhos e descansam.

10. Como curiosidade, e porque este é o décimo e último termo de comparação, convido o leitor a verificar como é que os povos que acabam de ser caricaturados usam os dedos para contar até dez.

Os portugueses contam até dez começando no indicador da mão direita e acabando no polegar da mão esquerda. Usam duas mãos para contar até dez.

Os japoneses usam uma mão para contar até dez. Iniciam a contagem com a mão aberta, e começando no polegar até ao mindinho fecham a mão e contam cinco; o mindinho volta a abrir a mão até ao polegar e chegam ao fim da contagem até dez. E eu cheguei ao fim da demonstração da diferença entre portugueses e japoneses.

Sábado, Maio 19, 2007

Dicionário de japonês V - Portuguesismos

beranda - varanda
tabako - tabaco
pan - pão
botan - botão
kappa - capa
shabon - sabão
koppu - copo

Terça-feira, Maio 15, 2007

Mitos portugueses IV - Tóquio? Caríssimo!

A estatística não teve dúvidas em dizer-me que Tóquio é a cidade onde se mais pode pagar para viver. Mas isto não significa que seja a cidade onde menos se pode poupar para sobreviver. Porque é muito fácil – e humano – escorregar no buraco da hipérbole, proponho-me a esclarecer este deslize.

Comunicando para crianças (afinal os únicos seres humanos não convertidos em multibancos): Tóquio é a cidade do Mundo onde se atingem os máximos valores possíveis para comprar qualidade, unicidade, prestígio; todavia, do grupo das cidades mais caras do Mundo, Tóquio tem os valores mínimos mais baixos.
Em Paris ou Londres não se anda de Metro por menos de um euro, não se aluga uma casa no centro por 350 euros, nem se tem uma refeição completa de saúde por três euros a qualquer hora. Jantar fora de casa na cidade mais cara do Mundo pode sair mais barato e saudável que no país dos bitoques e panados no pão.
Existem as lojas de 100 ienes, os chocolates a 97 e a cerveja a 200. Os preços do quilo de frutas e legumes é que já são outra fruta.

Para esbanjar uma fortuna rapidamente, Tóquio! Em muitos restaurantes o salário mínimo de Portugal não chega para o almoço. A distracção, característica inerente ao turista, transporta-o no capricho de quatro letras. Mas se esbanjar já é um capricho...

No barómetro do cifrão, a segurança da qualidade é como jogar na lotaria sabendo que se vai ganhar. Mas não é aconselhável visitar Tóquio em caso de triunfo na lotaria. É possível que a conta bancária se deslumbre. Incomparavelmente Tóquio oferece mais e melhor.

Sábado, Maio 12, 2007

Tic-Tac-Tokyo


Peço muitas desculpas aos amantes do Japão mas neste texto vou apalpar Filosofia antes de me referir à extravagância dos primeiros raios de Sol. Pôr-me a observar atento aquilo que não entendo à minha volta é uma das consequências psíquicas de habitar este país. Iniciar uma conversa pedindo muitas desculpas também.

Desde que cheguei que a duração dos fenómenos se alterou, ou, no mínimo, a percepção que tenho dela.
Mas não é preciso viver no Japão para que o tempo que demora esperar na fila do multibanco e o tempo que foge num beijo à pessoa que nos estremece seja discrepante desse estranho compasso que é a passagem de um segundo para o outro. O relógio inventado diz que foram 2 minutos e 47 segundos. Mas para o que se sente não foi e nem pode ser medido em unidades.


Foram os sumérios que na actual praia petroamericana inventaram o sistema sexagesimal: de facto 60 segundos mudam-nos a vida. Porque a matemática diz que 60 é o mais pequeno número divisível pelos números de um a seis.
Mas os sumérios ignoravam o conceito de zero. Deviam ter tudo, até tempo para tudo. E porque os sumérios não tinham zero o tempo não pára.
Mas e quantas vezes pára na minha cabeça? Não há relógio que conte quanto tempo passou se nada se passou na suspensão do momento. O tempo não flúi por aí, acontece diferenciadamente em cada mente (não ligue ao devaneio caro leitor, que estou apenas a apalpar a FiloSofia).

O tempo, ajustado à incógnita do Sistema Solar, foi inventado para facilitar a realização da humanidade. Mas complica bastante. Especialmente nas culturas latinas em que as 20h para uns é 20h30 e para outros 21h15. No Japão mais do que em outro lugar, “time is money” e tal como o dinheiro que é tratado em manjedoura, o tempo também: 20h significa 19h55, e à hora marcada, todos estão no mesmo compasso de existência.

Brincando aos sumérios em Tóquio, sei que demoro exactamente 13 minutos de Iidabashi até Shinjuku, e que no dia 2 de Junho vou encontrar-me com amigos japoneses às 17h55 em frente ao Studio Alta. Combinámos às 18h, com quase um mês de antecedência, porque não há tempo a perder. Sobretudo na maior área metropolitana do mundo, onde milhões de relógios se intersectam. E se respeitam uns aos outros.
No arquipélago japonês até o ritmo do tic tac é distinto. É quase axiomático que se atravesse a passadeira a correr para garantir o semáforo verde em pleno Domingo. Nem há tempo a perder depois de esgotado o dia com o nó da gravata: são 22h30 de Segunda ou Terça-feira, mas há tempo para diluir o álcool até ao último comboio de ligação a casa.
Na capital passa tudo célere… As coisas duram uma estrela cadente. Mas o que passou ainda há pouco, logo parece que foi há muito.
As pessoas passam e o passado esgota-se apressado. Talvez porque o tempo é demasiado precioso para se perder no presente ou desperdiçar no futuro.
Mesmo no segundo inventado é possível recriar nele algo para fazer que não se havia feito no segundo anterior, e certamente que o tempo se alongará.
Ler o Rashomon ou visitar Okinawa, por exemplo.

Terça-feira, Maio 08, 2007

Dicionário de japonês IV - A mania de abreviar

rimokon - remote controller
famiresu - family restaurant
toire - toilet
burapi - Brad Pitt
digicam - digital camera
pokémon - pocket monster
anime - animation
depāto - department store
kopipe - copy paste

Segunda-feira, Maio 07, 2007

A história dos 47 Ronin: Uma lenda contemporânea

A lenda dos 47 Ronin é um dos mais famosos episódios que sucedeu na História do Japão. A história reflecte o código de honra do guerreiro samurai. E continua actual. No Japão, o instrumento de dedicação e compromisso com os superiores passou das katanas às gravatas. (nota: katana é uma palavra japonesa)

Mas viajemos, no calendário que limita a minha condição ocidental, a 1701…

Era uma vez o daymio Asano Naganori. Os daymio faziam parte da hierarquia mais poderosa dos senhores feudais. Asano tinha sido ordenado pelo shogunato para se preparar para a recepção dos mensageiros do Imperador em Edo, o antigo nome referente a Tóquio.

Asano recebia lições de etiqueta por parte de Kira Yoshinaka, um poderoso oficial na hierarquia liderada pelo shogun Tokugawa. A tensão entre os dois começou a subir quando Asano não ofereceu a Kira presentes que o satisfizessem. Kira não gostou de não ter sido subornado para melhor tratar Asano. De um lado, tínhamos, então, um arrogante rude corrupto, e do outro, um confucionista que por o ser, conhecia o conceito de moral. Kira, sabendo da sua superioridade hierárquica, insultava e humilhava em público Asano, até que um dia, ao chamar-lhe de selvagem camponês, Asano perdeu as nipónicas estribeiras tão difíceis de perder e atacou Kira com uma faca, ferindo-o seriamente na face.

Mas o mais grave neste descontrole não foi a contusão, mas o ataque dentro dos limites da residência do Shogun, onde qualquer tipo de violência era proibida, pelo que Asano foi obrigado a cometer suicídio no mesmo dia, por ofensa para com a autoridade. Asano, sabendo que seria decapitado se não cometesse o sepukku, cortou o próprio estômago. Após a sua morte, as suas terras foram confiscadas, a sua família arruinada e os samurais às suas ordens tornaram-se samurais sem mestre, ronin.
Asano tinha 34 anos. Antes de cometer o suicídio, escreveu, como era tradição, o seu poema da morte: “Talvez ela queira ser lembrada após a morte. A flor da cerejeira cai depressa, mas a memória da Primavera permanece."

47 dos guerreiros de Asano prometeram vingar a morte do seu mestre. Liderados por Oishi, agruparam-se em segredo para jurar a morte de Kira, sabendo, porém, que cumprida a promessa, o seu caminho era a morte. Kira, temendo represálias, fortificou a sua residência. Os 47 Ronin sabiam que para suceder teriam de esperar que este atenuasse a sua vigilância. Dispersaram-se e souberam esperar pelo momento certo. O próprio Oishi, o líder do plano de vingança, mudou-se para Kyoto para desviar atenções, onde passou a frequentar tabernas. Kira continuava amedrontado, e enviou espiões, os ninja, para observar os antigos serventes de Asano. Um certo dia, Oishi adormeceu embriagado de saqué numa rua de Kyoto. Os transeuntes riam-se e um deles, um senhor da província de Satsuma, enfurecido pelo comportamento incorrecto por parte de um samurai, pois Oishi bebia até cair em vez de vingar o seu mestre, insultou-o e pontapeou-o na cara, um insulto atroz para um samurai. Pouco tempo depois, a jovem esposa de Oishi queixou-se da sua conduta. Oishi divorciou-se dela nesse mesmo momento, e ordenou-a que partisse com os dois filhos mais novos, ficando o mais velho à sua guarda. Em consequência, Oishi comprou uma amante.

Os ninja de Kira contaram-lhe tudo, e este ficava cada vez mais convencido que estava a salvo, que os samurais de Asano eram inofensivos e não tinham coragem, e assim baixou a sua guarda. Os outros 46 samurais trabalhavam como mercadores em Edo, tendo acesso à residência de Kira, conhecendo os cantos à casa. Um dos samurais, para obter as plantas da casa, casou com a filha do construtor. Tudo isto era secretamente narrado a Oishi.

Em 1702, quando tudo estava preparado e Kira já não tinha vigília, Oishi abandonou Kyoto, fugindo aos ninja, e juntou-se ao bando num local secreto, onde renovaram a promessa de vingar o seu mestre. Na alvorada de 14 de Dezembro, durante um forte nevão, os 47 Ronin atacaram a residência de Kira Yoshinaka em Edo. Seguindo um plano niponicamente pormenorizado, dividiram-se em dois grupos, armados com katanas e kyudos (arcos). Um grupo, liderado por Ōishi, atacou o portão principal; o outro grupo, liderado pelo seu filho mais velho, invadiu a casa pelas traseiras. Um tambor tocaria como sinal de ataque simultâneo e um apito confirmaria a morte de Kira. Assim que estivesse morto, Kira seria decapitado e a sua cabeça levada para junto ao túmulo do seu mestre. Depois, os 47 Ronin entregar-se-iam esperando a sentença de morte. Oishi pedira que mulheres e crianças fossem poupadas. Enviou mensageiros para informar os vizinhos de que não eram ladrões e que apenas pretendiam assassinar Kira. Os vizinhos, que odiavam Kira, nada fizeram.

Depois de posicionados os arqueiros para evitar qualquer fuga do castelo que desse o alerta, Ōishi soou o tambor e o ataque começou. Dez dos defensores de Kira detiveram os invasores da entrada principal, mas o grupo comandado pelo filho de Oishi entrou pelas traseiras da casa. Kira, aterrorizado, escondeu-se num armário. Depois de vencerem os defensores em frente à casa, os dois grupos juntaram-se e eliminaram a restante oposição. Os que tentaram fugir para pedir ajuda foram mortos pelos arqueiros. Com isto tudo os 47 Ronin tinham já assassinado 16 e ferido 22 guardas de Kira. Mas, onde estava Kira?

Inspeccionaram a casa, mas só encontraram mulheres e crianças. Até que Oishi se apercebeu que a cama de Kira ainda estava quente, portanto não poderia estar longe. Uma nova procura mais exaustiva descortinou uma passagem para um pátio secreto, onde estavam mais dois guardas que foram vencidos e mortos. Finalmente, encontraram um homem, que atacou um dos samurais com uma faca, mas foi facilmente desarmado. Recusou-se a identificar-se mas os samurais presentes achavam que era Kira e soaram o apito. Os 47 Ronin juntaram-se e Oishi confirmou que era, de facto, Kira pois tinha a cicatriz na face resultante do ataque de Asano. Assim, Oishi ajoelhou-se, respeitando o grau hierárquico de Kira, identificou-se como um dos guerreiros de Asano que ali estava para vingar a sua morte, como um verdadeiro samurai deve fazer, e convidou Kira a morrer dignamente, por suicídio, oferecendo-lhe a mesma faca que Asano usara para se matar. Todavia, Kira permanecia calado e a tremer. Oishi deu ordem a um dos Ronin para o decapitar.

O dia nascera, e os ronin carregaram a cabeça de Kira até ao túmulo do seu mestre no templo Sengaku-ji, causando grande alvoroço pelo caminho. A novidade espalhou-se rapidamente e as pessoas saudavam-lhes pelo caminho. Chegados ao templo, os 47 Ronin lavaram a cabeça de Kira e colocaram-na em frente ao túmulo de Asano. Seguidamente, entregaram-se às autoridades. Apesar dos samurais sem dono terem seguido o código de Bushido, haviam desafiado o poder do shogunato. Como esperavam, foram sentenciados com a pena de morte, mas foi-lhes concedida a oportunidade de cometer seppuku, suicídio, em vez de serem executados como criminosos.

No dia 4 de Fevereiro de 1703, os 47 Ronin cometeram suicídio. Foram sepultados no templo de Sengaku-ji, junto a seu mestre, como era a sua vontade. Muitos admiradores da sua coragem peregrinaram até ao túmulo. Uma das pessoas foi o senhor da província de Satsuma, que pontapeara Oishi quando este estava embriagado. Em frente ao jazigo, ele pediu perdão por ter pensado que Oishi não era um verdadeiro samurai. Cometeu suicídio de seguida, tendo sido enterrado ao lado dos 47 Ronin. Algumas das esposas dos bravos samurais, também cometeram suicídio, para se juntar, honrosas, aos seus esposos.
E ninguém desta história viveu feliz para sempre.



Mas como em tudo é possível interpretar de diferentes perspectivas, o autor do “Livro do Samurai”, Yamamoto Tsunemoto, contemporâneo da história dos 47 Ronin, defende que os samurais não agiram segundo o código de honra Bushido. Questiona: que fariam os samurais se Kira falecesse por doença entre o tempo que preparavam a sua morte? Seriam vistos para sempre como cobardes e trariam vergonha ao clã Asano. Para Yamamoto, o que os ronin deveriam ter feito era atacar Kira assim que o seu mestre estivesse morto, sem se preocupar se atingiam o objectivo de o assassinar, mas assim demonstrar extraordinária coragem e determinação no ataque a Kira, e deste modo conseguir o respeito eterno do seu mestre.

Para Yamamoto, a lenda dos 47 Ronin é uma história de vingança e nunca uma história sobre o Bushido. Para mim é uma história sobre a humanidade, e por o ser está manchada de sangue.

Segundo o mesmo autor, no código do Samurai não é a vitoria que interessa, mas sim a dedicação que se demonstra. Este valor moral continua a existir no Japão actual. Nas empresas japonesas, não são os resultados que realmente importam, mas o empenho no trabalho e a deferência para com o chefe. É preferível trabalhar pouco mas estar com o chefe sempre que ele precisar do que trabalhar bem e sair da empresa assim que acabado o trabalho. O mesmo que suicidar o tempo de vida.

Há algumas décadas atrás, em plena 2ª Guerra Mundial, o código do samurai foi invocado como propaganda para incentivar os jovens japoneses, filhos do império, a enfrentar a guerra sem temer a morte. A essência do código samurai era morrer e assim se tornaram kamikazes muitos adolescentes nipónicos, obrigados a entrar num avião com gasolina só de ida de encontro aos navios americanos.
À semelhança do ataque dos 47 Ronin, o ataque kamikaze é um ataque surpresa, de acordo com as tradicionais tácticas de guerra japonesas. Mas uma surpresa repetida deixa de ser surpresa. Na 2ª Grande Guerra, acedendo às ordens dos superiores, como nas entrelinhas da lenda dos 47 Ronin, os jovens japoneses não cometeram suicídio como a História adultera. Foram, sim, mártires da obediência. No Japão uma ordem serve para ser aceite, não discutida. Aliás, samurai significa aquele que serve. E os 47 samurais agora ronin, órfãos da autoridade, serviram a vida ao seu mestre.

Mas tudo lhes correu como planeado. E o país onde o sol nasce continua a traçar tudo ao detalhe para evitar surpresas, continua a ser paciente com os pormenores, e os objectivos são cumpridos como pretendidos.
A situação da mulher é que tem vindo a alterar-se e a hierarquia dos sexos está cada vez mais contígua no Japão contemporâneo. A história do passado acarreta o futuro dos países mas o tempo é evolução, é aperfeiçoamento, e alguns valores têm vindo a alterar-se desde a época dos 47 Ronin. Alguns.

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Sabia que...

É mais confortável e prático para lavar o corpo. Os homens aproveitam e aparam a barba em frente ao espelho.
Os japoneses tomam banho sentados num banquinho.

Apontamento sobre as japonesas

O cotovelo segura a carteira, joelhos contíguos e pés ligeiramente inclinados para dentro, caminham como fantoches da beleza, esbeltas, esguias e sorridentes. Devem ir ao shopping, à manicura ou ao cabeleireiro. Sabem tratar da imagem porque são japonesas.

A menina do Ocidente procura esconder a adolescência imitando a mãe, contudo a ninfa nipónica estende quanto pode a sua meninice, imitando a inocência. Kawaii!

Assumo a generalização de escrever que estas bonequinhas japonesas são o ser mais feminino do planeta Terra (um pequeno apontamento sobre os japoneses: são os homens mais femininos do planeta).
Voltando à musa deste meu delírio hormonal em forma de texto, a japonesa ganha tempo de vida na arte diária da maquilhagem. Límpidas como pó talco já que no Japão o belo veste de branco, todos os dias a elegância é cerimonial. Enfim, parecendo bonita é-se bonita.

Meigas, não dizem asneiras, pedem desculpa na vez de agradecer, e na busca permanente de estar na moda automimam-se com acessórios artificiais ao corpo.
É difícil compreender o que é ser mulher estando do outro lado do sexo. Que seja feliz o ser que mais estimula o mundo em que vivo desde que eclodi da mulher mais importante da minha vida.
Sendo a japonesa o auge do ser feminino, a alquimia do dócil com a elegância, da maquilhagem com a educação, transforma a multidão de Tóquio num éden visual. É incrível a percentagem de mulheres que parecem bonitas.
As japonesas são gatinhas que não arranham. O seu miar baixinho é um hino à feminilidade.

Fotografias, aqui.

Provérbio japonês

O sapo do poço não conhece o oceano.

Quarta-feira, Abril 25, 2007

A anarquia dos guarda-chuvas

Eu que sempre ignorei a secção política dos jornais, li numa tarde livre um livro sobre anarquismo. É melhor sonhar o impossível que viver o conformismo.
O conceito de não-propriedade a que alude o anarquismo continua presente na impossibilidade das minhas ilusões. Que direito têm os David Beckhams do Mundo de possuir vinte BMW's estacionados quando há quem não tenha pés e caminhe?
(Todos sabemos a resposta. Se não souber, não fique em apuros, é possível comprá-la.)

Em Tóquio os guarda-chuvas são relevantes. Para muitas senhoras, combina com o vestido, mas nas práticas quotidianas, também abriga da chuva. Tudo aquilo que protege, assegura ou ampara é usado por japoneses e daí que qualquer chuvisco abra o objecto mais ergonómico.


Imagine-se então um aglomerado urbano com, por exemplo, dez milhões de chapéus-de-chuva ambulantes. A anarquia reina: não-propriedade. Saio de casa com o guarda-chuva comprado na loja de conveniência, no café já mo levaram e pego noutro sem pedir licença, e mais tarde faço uma troca amigável com um citadino invisível. De facto, quem anda à chuva molha-se, mas "nokorimono ni wa fuku ga aru" diz que a sorte existe nas sobras.

Quinta-feira, Abril 19, 2007

Bem-vindo a casa, Mestre

O turismo do Ocidente aflui a Akihabara em busca de máquinas fotográficas, ipod’s, computadores, cabos, chips e outras pechinchas electrónicas. Os consumidores mais devotos rapidamente desvendam o mito dos preços baixos, mas de nada têm a desiludir-se da ida ao Bairro Eléctrico num Sábado ou Domingo.

Akihabara é a Meca da sub-cultura otaku, um termo japonês que se refere a pessoas obcecadas por videojogos ou animação, e que traduzido no meu dicionário de português coloquial significa cromo.
Uma das suas predilecções é serem tratados como heróis, e nos Maid Café de Akihabara exploram a menina subserviência vestida de empregada vitoriana. São pessoas que vivem num mundo trapezista entre as vidas perdidas nos videojogos e o desperdiçar da vida fora dos limites da animação digital.

Descobri que fui “otaku”, por ter viciado a infância em séries de animação japonesa, como Tom Sawyer ou a minha preferida Willy Fog - A Volta ao Mundo em 80 dias, entre tantas outras criadas pelo estúdio Nippon Animation.
Desde Heidi a Tsubasa, Dartacão e Songoku, a fábrica de personagens do Japão tem vindo a entusiasmar os olhos das crianças do mundo. E os dedos também: Nintendo, Sega, Playstation.

Passeio o meu olhar em Akihabara, a gente otaku joga videojogos, e eu mais uma vez delicio-me a jogar Japão.

Fotografias, aqui.

Sábado, Abril 14, 2007

Dicionário de japonês III - Gíria

shou - muito
ossu - bom dia
doshita no - que se passa?
nampa - engate
abune - perigoso
ne - nao é?
sugee - extraordinario
maji de / usou - a sério?
sou dayo - é isso mesmo
kakke - fixe
un - sim
uun - não
omoshiree - interessante
chigauyo - não é assim
kuso - merda
mata ne / jaa ne- até logo

Quinta-feira, Abril 12, 2007

Tate-mae, o esconderijo da verdade

O risco de fiar num sorriso nipónico enfrenta a dualidade ética da sua cultura: ser social Vs ser pessoal. Na vida formal dos japoneses (o mesmo que dizer todos os dias), os seus sentimentos e opiniões nem sempre expressam o que realmente sentem, mas o que é conveniente ser dito, para evitar que a franqueza agrida ou emocione.

Esta aparente mentira em prol da harmonia é o "Tate-mae", considerada uma estratégia para suavizar as relações. Se a verdade pesa, o japonês guarda-a para si e afirma algo que soe agradável. O que se traduz numa gentileza falsa.
O conceito de “Hon-ne” reflecte o reverso, o pensamento verdadeiro, frequentemente escondido pelo "Tate-mae" ou pelo silêncio.
E o importante papel da embriaguez no Japão revela-se também no feitiço de desobstruir o "Hon-ne" dos seus habitantes.

Não é fácil para um latino adaptar-se a estas vozes simpáticas, depois de aprender com seu pai a ouvir aquilo que não quer ouvir, a ouvir a verdade que dói. Mas constrói. Certamente que os papás do Japão fazem o mesmo com os seus filhos, largando o "Tate-mae" na alfândega da verdade, a intimidade.

Segunda-feira, Abril 09, 2007

Dicionário de japonês II - Anglicismos

raita = isqueiro
hoteru = hotel
kisu = beijo
painaparu = ananas
miruku = leite
bata = manteiga
juusu = sumo
keiki = bolo
hotto = quente
doa = porta
rasto = ultimo
rishiito = recibo
purei = jogar
biru = cerveja
bai bai = adeus

Sexta-feira, Abril 06, 2007

País paradoxo

Talvez seria mais simples dizer que o Japão é e não é um paradoxo. Assim entende-se mais profundamente o que este país leva a matutar. Mas os meus dedos não param de embalar o teclado…

...

Que visão estranha não ver entulho nem contentores de lixo nas ruas. Piriscas de cigarros, para onde vão no meio da fumarada destressante? (Para o local devido.) Evaporam-se no respeito nipónico.

...
No último dos países desenvolvidos em que os direitos femininos começam a ser restituídos ao congénito, a tradição vestida de empregada ainda serve primeiro o filho esgrouviado e depois a mãe doutora que o vem visitar.
(E as senhoras que se juntam à bola masculina, sem arbítrio social machista?)

Japão, Japão, aproveito para confessar, (Não a Deus; aproveito para dizer adeus a Deus) que esta é das circunstâncias que somente me permites tolerar: é Verão, e o sol reflecte nos prédios a humidade que gruda; entro no metro no café ou na empresa, dou um passo e estou em Dezembro; é Inverno, e o sol reflecte nos prédios a brisa que congela; entro no metro no café ou na empresa, dou um passo e estou em Agosto. Como me condiciona o ar artificial.

Mas as meninas do colégio não se apoquentam. É novamente Inverno e a saia curta conjuga com o cachecol. As senhoras dos passeios no bairro de Ginza ou outras cidades-shopping, enchem a sua carteira Louis Vuitton com produtos da loja de 100 ienes.
Não podendo me viciar na cafeína lusa, uma esplanada ao sol permitia-me esclarecer que a saudade é falsa. Mas comer e beber ao ar livre, ou o prazer de um passeio a trincar o fruto do desejo, é visto com sobressalto pelo olhar samurai. Até chegarem as flores da primavera ou o fogo-de-artifício. E os piqueniques... "Desculpe, este lugar já é nosso, hoje vamos mastigar no exterior. Com licença." Li algures que se a indústria do sexo do Japão fosse uma nação independente, era a 60ª maior economia do Mundo. Atrapalha o meu raciocínio ser claramente (ou timidamente?) o país com menos actividade sexual do Mundo. (cf. estudo aqui).
...
O cidadão nipónico vive num tempo de transição. Quando algo lhe atinge o presente, já é passado. (Não se muda o que é tradição porque a mudança é ela própria tradição.)
Os japoneses vivem a antecipar problemas, a rever a agenda e reservar bilhetes, a preparar o futuro. Mas não há tempo verbal Futuro na gramática japonesa.

O Japão não existe para ser entendido. Afirma e nega o mesmo. Fala simetricamente de uma verdade. Uma verdade inacreditável, o Japão.
Fotografias, aqui.

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Inconsciência

Escutei, ontem, ecos da inconsciência, e percebi como o bonsai se ramifica dentro de mim.
"Desculpe, estou cansado, vou falar em inglês.", e comecei de seguida a oração, em japonês. A ouvinte riu-se na minha frente mas eu continuava inconsciente.
Esquecera quão perto estou do longínquo.

Quarta-feira, Abril 04, 2007

Sakura, és vida em natura

É a tulipa da Holanda
Ou a papoila do Afeganistão?
Nem o cravo da Revolução!
Vou cessar a nomenclatura.
A flor mais admirada é do Japão,
Cresce na cerejeira Sakura.

Antes de chegar Abril
Principia a desenvoltura.
Traz o rosa primaveril,
Dispara a máquina que perdura.

Na ilha das modernas tradições,
Ao cinema das flores, o hanami,
Correm nipónicas multidões,
Jamais algo assim vi.

Junta-se a família, em piquenique.
Esgota a garrafa de saqué
Antes que a flor seca fique.

À noite, flocos de neve.
De dia, algodão doce.
Onde floresceria tão breve
Se no Sol Nascente não fosse?

Sakura, és vida em natura.
Harmoniosa,
Como a gente deste Japão.
Efémera,
Como a batida do meu coração.


Hanami, aqui.

Segunda-feira, Abril 02, 2007

A formiga pede desculpa por ir descansar

Quantos trabalhadores japoneses consomem a vida em horas extraordinárias. "Osakini shitsurei shimasu", não se esquecem de desculpar-se diariamente: “peço desculpa por estar a deixar o trabalho mais cedo do que você”.
O Japão adopta o sistema de promoção por senioridade e emprego para toda a vida, e por isso o número de horas passadas na empresa é o barómetro de lealdade e dedicação de um empregado, critério essencial para “fazer carreira”, ou seja, ser promovido no engodo do capitalismo.
Os pinguins da corporação não são obrigados a trabalhar longas horas, antes estão dispostos e acostumados a fazê-lo. A empresa torna-se a sua família, e a vida profissional prioritária à vida pessoal: muitos não gozam os raros dias de férias a que têm direito por medo de perder o emprego.



Esta dedicação obreira contribui para que o Japão seja ainda a 2ª maior economia do Mundo, mas a excessiva industrialização do corpo tem consequências na semântica. Existe uma palavra japonesa ("karoshi") que significa "morte por horas extraordinárias". (Não foram poucos os casos ocorridos no Japão.)

De traje vestido transformam-se no salaryman e na office lady. Salaryman… o homem do salário, o sustento de uma família, dinheiro em forma humana. Office lady… a senhora do escritório, a secretária, o país desenvolvido com menos mulheres nos mais altos cargos empresariais.
Estes super-heróis do emprego não usam "Konnichiwa" nem "Sayonara" para se cumprimentarem. Um "Otsukaresamadesu" constante congratula o colega pelo seu esforço e deseja bom descanso.



Formados para servir e não questionar o superior, acomodam-se à secretária. É o local de trabalho e muitas vezes a sua mesa de almoço e jantar. Chinelos e escova de dentes não faltam, porque, afinal, estão em casa.

Só no final do trabalho o álcool ajuda a relaxar do aperto da gravata. No dia seguinte o Sol Nascente voltará a tornar-se a luz do escritório.

Quinta-feira, Março 29, 2007

Dicionário de japonês I - Justaposição de dissílabos iguais

giri-giri = no limite
maa-maa = mais ou menos
bara-bara = espalhado; repartido
gara-gara = vazio
hara-hara = nervoso
betsu-betsu = separado
potsu-potsu = chuviscos
gocha-gocha - confuso; misturado
kuta-kuta - cansado; exausto
mada-mada = insuficiente
doki-doki = excitado
peko-peko = esfomeado
iro-iro = vários
ira-ira = impaciente

Quarta-feira, Março 28, 2007

Rabiscos do parque nipónico

Decifrando as regras do parque...
Segurança é qualidade de vida.
Os contentores do lixo já foram removidos das ruas do Japão; quem faz lixo, leva-o para casa.
Os jogos com bola são proibidos neste lugar, porque existe um local específico que serve somente para os jogos com o mais simples brinquedo do Mundo; as crianças encontram limites à exploração da traquinice, o mundo onde brincam é arquitectado. (Mas que lhes importa isso…)
Apesar de atrelados, os cachorros estão a ganhar espaço no país com mais falta de espaço; os seus excrementos também são levados para casa.
A fronteira entre a fotografia profissional e amadora é imperceptível. O amadorismo displicente, invisível.
O uso do idioma inglês é simultaneamente burlesco e admirável.

No fim de contas, as regras são cumpridas.

Terça-feira, Março 27, 2007

Desorientações na selva urbana

Os habitantes de Tóquio, capital Fungi do urbanismo, movem-se munidos de mapas para encontrar o X pretendido. Qualquer estabelecimento exige a carta de orientação ou uma seta humana estrategicamente colocada em caso de evento importante.

Apesar da eficiência japonesa espalhar quadros “You Are Here” pelas ruas que não têm nome, descobrir uma morada no Japão é um ensaio para o jogo Sudoku. Enquanto as cidades se dividem numericamente em áreas, quarteirões e prédios, a matemática namora a geografia e a antropologia pisca o olho ao Japão. Se um dia escrever uma morada em japonês, comece pelo código postal e acabe na abreviatura Srª.
Os japoneses não são diferentes nem são do contra, são simplesmente japoneses.

(A melhor bússola é caminhar, sem destino.)

Quarta-feira, Março 21, 2007

Mitos portugueses III - Máscaras de gás

Segundo sei, não existe urânio empobrecido nas ruas do Japão. Mas tenho a certeza que em pragmatismo não há só um crânio entendido.

Como o japonês considera em grupo antes de se lembrar de si, sabe como é simples e funcional não transmitir o seu vírus gripal a outros: usando uma máscara.
Uma máscara que não protege da poluição. Porque a única poluição que se vê e se sente é a visual, da incursão permanente da publicidade.

Sábado, Março 17, 2007

Amarelo M

Mudam-se os hambúrgueres, mantêm-se as vontades.
Amarelo M, teus afazeres, semear obesidades.
Os papás dizem sim ao moço, e o repasto da felicidade
É o pequeno-almoço de qualquer cidade.
Amarelo M, de maquia e malefício,
Na Coca-Cola andas a esconder o vício.
O pouco pato Donald engorda de dinheiro
Seu perfume engordura o tempo inteiro.
Se outros lá estão, aqueles copiam a acção.
Sobe o colesterol, como o balão do João.
Amarelo M, eles não estão a perceber,
Que fazes deles o que te apetecer.

Quinta-feira, Março 15, 2007

Provérbio japonês

Cai sete vezes, levanta-te oito.

Quarta-feira, Março 14, 2007

Imagens narrativas VI - Tons de vaidade

Recordo os primeiros dias a bordo desta ilha… convencido que as tonalidades capilares eram naturais. Ingenuidade e jet-lag? Ou dificuldade em acreditar que uma percentagem assustadora de nipónicas tinge o cabelo com a cor da vaidade e que a metrosexualidade lhes segue o exemplo?

Como tudo neste zoo da imagem que é o Japão, também os cabelos são tratados pela minúcia. Os clientes podem escolher qualquer hora do dia para a tosquia, em cabeleireiros-bar ou lojas de sapatos-cabeleireiros. O preço do aparo do couro cabeludo nipónico varia entre o pouco barato e o estupidamente caro.

A arte do corte é aprendida em escolas especializadas: os cabeleireiros japoneses já são considerados artistas em vez de barbeiros. E enquanto não há clientes, e porque nasceram japoneses, treinam a tesoura em cabeleiras postiças.

Terça-feira, Março 13, 2007

Shinjuku e seus espécimes remotos

Milhões de pessoas se ignoram todos os dias na estação de Shinjuku. O maior portão ferroviário da capital, Shinjuku é também o centro de negócios, comércio e entretenimento.

É lá que está o Kabukichô, considerado o local mais perigoso do Japão, onde não há assaltos e violações, mas sim respeito, limpeza e muitos restaurantes. Mas por este distrito vermelho avistam-se homens com menos um dedo pela honra de pertencer à máfia yakuza.

Entre luzes que chamam dinheiro, vigésimos andares de equipamentos electrónicos, compassos de elegantes sapatos, salarymen cambaleando depois do trabalho, em Shinjuku é ocidentalmente fácil perceber que não se alcança o Japão. Exige muitos endurecidos anos para se chegar ao limiar da inacessibilidade.
Daí que no Japão muitos estrangeiros acenem a cabeça uns aos outros, um gesto de cumplicidade de se sentirem aparte no formigueiro da ordem.

Shinjuku opera à japonesa; mas se assim é, significa que funciona.

Shinjuku, aqui.

Terça-feira, Março 06, 2007

Sobetsukai

A palavra japonesa "betsu" significa separar e é o sobetsukai que celebra a despedida. Nove meses decorridos desde o início do meu Estágio na Delegação do ICEP, foi a vez do meu sobetsukai, onde se festejou também o nascimento de um bébé profissional.

Repartido entre os tons escurecidos do vermelho da soja e do vinho alentejano, o último almoço deste nível completado da brincadeira da minha existência, foi pensado ao pormenor. Afinal, estamos no Japão. E no país que erradica os erros, as imperfeições sao avaliadas antes de sucederem.
Considerando a posição profissional, o género sexual e o fluir de diálogos, os lugares dos participantes foram estudados...
E estudados novamente.








Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

A harmonia vestida de uniforme e o absurdo do Inverno

As gentes do Japão permanecem vestidas de harmonia. A formação do carácter nipónico começa cedo a esconder a individualidade por detrás do uniforme, e é trajado para determinada função que o japonês se identifica com quem é: uma parte de um grupo interdependente.

Os uniformes de estilo ocidental são usados na Educação japonesa desde o final do século XIX. Actualmente, o ensino público obriga as crianças dos 13 aos 18 anos a vestir o standard exterior. Enquanto os rapazes vestem de estilo militar e na puberdade se habituam à gravata, o traje de marinheiro é o mais comum para as meninas. As vestes variam de escola para escola, mas pouco. Na sua lolitomania, algumas escolhem a escola consoante o tipo de uniforme, e é certamente uma menina colegialmente vestida que espevita o primeiro calor de um japonês.
O uniforme é um elemento central no Japão, um símbolo da juventude e um álbum de memórias.


No Japão o estádio da imaturidade é um privilégio que se estende com vaidade. Ao contrário da sociedade onde nasci, que recalca com a cruel entrevista ”o que queres ser quando fores grande?”, no Nippon não há pressão para se chegar a adulto, e muitos crescidos continuam a consumir como crianças.
(Se as crianças portuguesas soubessem o que é ser grande, decerto responderiam à entrevista com um “quero ser pequeno!”).


Certos jovens nipónicos, no período auge da irreverência, vêem o traje como um preconceito de conformismo e tentam adulterá-lo para se naturalizarem. Apenas querem elevar o seu eu no local idealizado para que todos pareçam iguais.
Assim, subvertem o instalado afastando o nó da garganta, desabotoando camisas ou, mais explícito... tornando a saia uma mini-saia. As saias originais são longas, mas as meninas enrolam-nas e os olhares rebolam.

Tal atrevimento transformou as colegiais num símbolo sexual, e talvez por isso muitas usem meias com o símbolo do Coelho rosa. O alvo do fetiche é o vestuário em si: à medida que as saias foram subindo, os uniformes escolares tornaram-se uma importância inegável nos ímpetos naturais japoneses e nas indústrias que os patrocinam.

A vantagem da farda (além de extinguir ricos e pobres) é que as meninas não perdem tempo de manhã a escolher o que vestir, todos os dias conscientes da importância da imagem.

Agora que com Fevereiro chegou o pico do Inverno e os graus baixam a negativos mas a saia continua subida, muitas estudantes protegem os pescoços com o mesmo cachecol Burberrys.

A menina japonesa tem frio no pescoço mas não nas pernas: aguenta a temperatura para alcançar o mais importante, estar bonitinha.

No Verão não custa tanto estar bonita, aqui.

Domingo, Fevereiro 18, 2007

Vénia ao néon

Nas cinzentas metrópoles não se aglomera apenas a rotina. Os amontoados de cabos são verdadeiras torres de Pisa de electricidade, fazendo uma vénia à solicitação néon.

A eléctrica cidade de Tóquio exterioriza a sua energia: para onde quer que se volte, os volts estão por ali.

Electricidades, aqui.

Sábado, Fevereiro 17, 2007

(sem título)

Sábado, Fevereiro 10, 2007

Pedigree Social

A industrialização dos animais de estimação é apenas outra peculiaridade que desagua na expressão “só no Japão”.

Os valores da qualidade e sofisticação são de tal modo aquecidos pelo Sol Nascente que até os cãezinhos beneficiam desta importância de pedigree social, sendo tratados como seres humanos. Enquanto abundam os cafés, cabeleireiros e hotéis para cães, existem actualmente menos crianças do que animais domésticos.

O cão tornou-se um adereço de moda, que segue as tendências de roupas, jóias e penteados. Usam jeans, colares opulentos ou fatos de treino, conforme o dono.
São, afinal, o melhor amigo do Homem, mas também da japonesa solitária que procura afectos e do casal que substitui o filho que não pode suportar financeiramente.

No caso dos "proprietários do ser vivo" saírem da ilha, os animais podem ficar instalados na suite construída no Aeroporto de Narita. Pedicura, uma nova cor de pêlo ou noites em hotéis de amor, tudo existe neste mundo-pouco-cão. Até matrimónio, se houver romance.

Os donos usam malas ou carrinhos para levar o cachorrinho a passear, ou levar-se a si próprios a passear com a companhia possível de obter numa loja. Nestes supermercados de vidas, há Chihuahuas de poucos gramas a pesar cerca de 500.000 ienes (mais de 3000 euros).
No Japão contemporâneo já não é o cão que suja o tapete, antes é o tapete que não pode irritar a pelugem da criança canina.
Mais fotos, aqui.

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Provérbio japonês

Dar à luz um bébé é mais fácil do que se preocupar com ele.

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Máquinas de venda nos olhos

No arquipélago de 127 milhões, o delírio consumista não escolhe horas nem ruas nem passeios: existe uma máquina de venda automática por cada 23 habitantes. E mesmo em inferioridade, as máquinas não são vandalizadas.

A maioria vende bebidas a pouco mais de 100 ienes, numa diversidade de oferta colossalmente inversa ao homogéneo génio nipónico. Mas flores, ovos, cigarros e gelados também estão ao alcance de botões.

Não deixo de ser dominado pelas marcas. Conforme o dia e a máquina, escolho um café que me inspire ou me dê fogo.
Até nas latinhas de café o Japão absorve as pessoas de imagens superficiais.

Mais fotos, aqui.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Nem mais um segundo

Faltam dez minutos para o Shinkansen iniciar a viagem a mais de 300km/h.
Empregadas uniformes aguardam pela limpeza supersónica das suas funções. Passageiros ordeiros nos locais que demarcam as carruagens da locomotiva. Em breve a porta 14 estará milimetricamente à frente dos que esperam a carruagem 14.

O comboio-bala ainda não está na plataforma da Estação de Tokyo.

Mais um dia na prática das tarefas. Até os passageiros trabalham para o maquinismo formigueiro da cultura. Higiene ao milímetro, eficácia ao segundo.
À hora certa a bala partiu.

Domingo, Janeiro 21, 2007

Women Only

À hora de ponta no metro de Tóquio começa mais um dia de transporte como sardinha enlatada.

Depois de muitos obscenos comportamentos japoneses, que se aproveitam do espalmar dos corpos para consultar a tacto as finas nipónicas, engendraram-se carruagens unisexo.

Por este descontrole de hormonas dos chamados chikan, os homens começam a ser negados também em outros locais, como lojas e restaurantes.

Mas no fim do dia de trabalho, e de volta à sardinhada, deixa de existir a exclusividade feminina nas carruagens, e chikans como o célebre Homem do Espelho voltam a ter oportunidade para o apalpo.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Certificado de Alienígena

Os forasteiros são carimbados como aliens no país que existe noutro planeta.
É obrigatório o registo como alienígena, para ter como identificação pessoal o Certificate of Alien Registration Card.
O mergulhar de extravagância japonesa deturpou a minha consciência, pois só muito Japão depois é que compreendi: não é o Japão que é estranho para mim, eu é que lhe sou estranho. Tenho Certificado de Alienígena e vivo rodeado de terráqueos nipónicos.


Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Sinal vermelho à irreverência

Não se escuta um motor, não se avista um condutor. Numa rua oca de tráfego, os japoneses adiam a vida enquanto o Deus-ampulheta do urbanismo não esverdear.
O superior diz, o japonês obedece.

Sei que um carro invisível não atropela e a minha luso-impaciência avança criminosa. A meio da passadeira sorrio, quando uma ou outra alma nipónica conclui algum bom senso na minha rebeldia, e comete o delito também.

O Japão é um universo de cópias, até de sensatez.


Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

A chegada da idade

Não posso ser um explorador nato depois de querer ficar na barriga da minha mãe.
Faz hoje 25 anos que não quis entrar neste Mundo.

Mas não é por isso que é feriado nacional no Japão e as meninas de 20 anos vestem o kimono. É a Chegada da Idade, Seijin no Hi, comemorada pelos novos homens e mulheres. A teoria diz que já podem votar, beber, fumar. Aos 20 é-se adulto.

Aos 25 ainda não. Chego à idade todos os dias.

Domingo, Janeiro 07, 2007

Dissecar uma cultura num objecto

Moxi moxi? Não é preciso atender a chamada, para o keitai ser uma omnipresença nesta sociedade. O Japão é o líder mundial do objecto-embalador-dos-tempos-transitórios.

Numa carruagem de metro apinhada de falta de espaço, há ainda lugar para o ciberespaço. Todos estão ligados no modo silencioso, os telemóveis também. É o manner mode, o respeito pela comunidade, e em grupo aproveita-se o baixíssimo custo de envio de mensagens. Ou apenas se gasta tempo pelos botões.


Mata o vício dos jogos e da televisão, diz ao minuto se caem pingos de chuva, é o mais kawaii, toca música, faz de cartão de crédito, transporta porta-chaves girinhos, é Internet, guarda sentimentos. Os afectos cabem num pedaço de plástico.
É uma máquina territorial, capaz de transformar um comboio ou um elevador num espaço invisível de intimidade sem fios. O digital a servir o sentimental: as pessoas transportam no telemóvel as amizades, amores e outras (ainda potenciais) relações.

Num país de relações em deslocações, as ondas electromagnéticas são o refúgio para tédio e sono não atingirem as carruagens do metro. Muitos passageiros informam-se dos horários de transporte em pleno transporte, pelo keitai que acede à Internet. Fazem algo enquanto se deslocam, os japoneses muitas vezes vivem o instante seguinte antes do instante actual.
Daí a alienação na imersão tecnológica. Tocam os botões, acariciam-se, olham fixados para o objecto que isola, mas que protege do isolamento da sociedade exterior ao permitir movimentar-se pelo mundo nipónico com a toca de privacidade (é tamanha a importância do local que há autocolantes próprios para distorcer o aspecto do visor ao passageiro do lado).

É um modo de comunicar simples, rápido e privado. E que se pode adquirir por zero ienes (o meu foi um iene mais caro). Todos os modelos incorporam câmara fotográfica mas nenhum permite tirar fotografias sem que um som seja emitido. Assim todos podem ser testemunhas de um fotógrafo indecentemente carente.

A vida com esta tecnologia é tão natural que o keitai não é mais do que uma extensão do corpo, um ser essencial na cultura do Japão. E se o fenómeno acontece no país pole-position, pode ser esta forma de fervilhança magnética o futuro do Mundo.

Mais fotos, aqui.

Domingo, Dezembro 24, 2006

(interrupcao asiaticamente temporaria do blog)

Com... O CANTO PORTUGUESINHO

De um costume brandinho,
Sonhava um menininho
Por um caminho sozinho.

Do ninho pequenininho
Esvoaçou o rapazinho,
Portuguesinho.

Onde nasce o solzinho
Avança devagarinho,
Procura o seu cantinho,
Deseja um cafezinho,
Obrigadinho!

Estima as japonesinhas
O salta-pocinhas.
Do que mais gosta da terrinha,
É das saudadinhas,
Como as que sente agora,
Poucochinhas…

Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Hotéis do Amor

Guetos arco-íris de extravagâncias arquitectónicas, os distritos de “Hotéis do Amor” servem para os japoneses desanuviar o acumular hormonal, enxugar os beijos que não trocam em público. O aconchego dos ninhos de privacidade desinibe casais que vivem com os pais até tarde demais, eclipsa a tenuidade japonesa das paredes que confessa agonias de prazer. Também servem para turvar a meretrícia.

A descrição é superficialmente nipónica. Na recepção não há olhares que condenem desemparelhados, e o quarto escolhe-se num painel luminoso de fotografias. Aos Sábados à noite, a luz acende, “FULL”, e pela madrugada dentro e fora, os lençóis são os redentores da energia libidinosa. Música e jacuzzi, corações e karaoke, desabotoam chocolate que esconde o que descobre voluptuosamente a imaginação.

Ou descansam durante três horas, ou ficam. As hormonas preferem os Love Hotel.

Outras fotografias, aqui.

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Provérbio japonês

O prego que sobressai, logo será amassado.

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Outono é aqui

As árvores caducam de vermelho,
A paisagem.
Do Inverno que não chega velho,
A melancolia.
Pensamentos cinzentos na aragem
Esvoaça ao sabor dos ventos,
A nostalgia.
É Outono,
E Outono é em Quioto.

Outono é aqui.

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Imagens narrativas V - Maiko

Existo na mistura dos caminhos, do lado que sigo nos caminhos e nos instantes passados nos caminhos. Aprendi a não parar para decidir por que lado vou. O lado que seja é o em frente.

Na caminhada de 24 voltas da Terra ao Sol, encontro-me especado com esta oportunidade. As Maiko-san cruzam-se no caminho. Ambas percebem que estou pronto a preservar o instante. Em segundos desaparecem no seu caminho mas ficarão para sempre nas pedras que já trilhei.

Maiko-san são as aprendizas de gueisha. Cada passo da “criança que dança” é um cortejo de inocência, uma caricatura de feminismo.
A quantidade de turistas que se disfarçam de Maiko em Quioto assoma dúvidas e a foto torna-se um enigma. A minha consciência clama que são autênticas. O uso do telemóvel confirma o país dos paradoxos, a velocidade a que caminhavam, o argumento final. Nenhuma turista se desenvencilha com as sandálias pokkuri.

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Acordes de Quioto

A nota musical mi é o leitmotif de viagem pela única cidade em que ainda remanescem machiyas, as casas tradicionais de madeira. Um bom-senso de preservação cultural livrou Quioto do átomo.
Ao chegar à Estação futurista que bombeia a soberania de turistas, cintila-me o arco-íris de cinzentos comum às metrópoles japonesas.

Na cilada do circuito sightseeing, uma pressão desentope em mim balbúrdias interiores. Enquanto me concentro para não vociferar e com o apetite a potenciar impaciências, resisto a uma hora de viagem pelas novas ruas do velho Japão, esmagado pelas contradições singulares desta cultura. Os japoneses não se tocam, jamais se beijam em público, e neste autocarro o amassar dos corpos é permanente e aos solavancos.

Com a independência de um pé atrás do outro conquistada, desisto de memorizar o nome dos templos que visito, esqueço-me quantas vezes Buda me sorriu. Quioto é um templo em forma de cidade que atrai multidões de ienes.
Volto por isso a suportar o frenesim turístico. Insistirei neste assunto enquanto me incitar que a maioria dos excursionistas viaje no tempo de uma pose para a fotografia. Depois de gravado na memória – da câmara –, acabou-se a viagem.

Refugiando-me na tecnologia para alcançar a tradição, ouço flautas MP3 que me recheiam de vácuo, desfruto o que outros desprezam e me transporta ao silêncio ritmado pelos sons da natureza de séculos atrás.
Mas a romaria destrói tentativas de meditação nas rochas Zen que induzem ao transcendental.
Os jardins Zen são sem dúvida de uma beldade inaudita, de uma placidez que emana energia. Mas não existem. Concebidos por arquitectos, são galanteados diariamente ao detalhe, atingindo o belo da mesma forma que está inscrito no nome das minhas companheiras de viagem, Fumi, Asami, Naomi e Yumi. Mi significa beleza, e em todas elas se amplifica para além do nome.
Apresentam ao seu ex-aluno de japonês o antepassado de Quioto, cantando pela manhã bebida de saqué acordes em mi maior.
Mais fotos de Quioto, aqui.

Terça-feira, Novembro 28, 2006

Kaizen, o aperfeiçoamento contínuo

A perfeição até pode não existir, mas o Japão persegue-a constantemente.
Kaizen é uma filosofia seguida na família e na empresa. Nenhum dia deve passar sem haver qualquer melhoria, porque os japoneses têm a consciência pesada de que é sempre possível fazer melhor, um princípio que identifico no amigo Romão.

O meu mestre de futsal é o português mais japonês com quem convivi em Portugal. Sem o saber, o Romão segue à risca a cultura Kaizen. “É preciso melhorar”, logo o ouvíamos dizer depois de vencer um jogo por 7-0. Claro que para alguns, no país que educa tolerância e declarações de desistência, pessoas assim tornam-se chatas.

No colectivismo nipónico, olha-se em frente num horizonte bem longo, o futuro vive-se no instante, como treinar a posição de golfe enquanto o metro não chega. Mais do que melhorar, Kaizen significa todos estarem sempre a melhorar.

Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Lafcadio e os contos de fadas

“Quando notar, daqui a mais 4 ou 5 anos, que não consegue entender os japoneses de modo algum, é então que começará a conhecer alguma coisa a seu respeito”
Lafcadio Hearn (1850-1904)

Terça-feira, Novembro 21, 2006

"V" de Paz

Foi durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 1972 que uma patinadora artística e atleta da Paz tornou célebre o sinal em "V" nos meios de comunicação nipónicos.

Os japoneses pausam o momento no tempo para ser vivido depois. No alvoroço da imagem, as máquinas fotográficas fazem fila de espera para o disparo que eterniza.
É frequente pedir emprestado o serviço de um fotógrafo transeunte, e antes do clarão do flash, já os dedos se adornam aos sorrisos para manifestar num "V" a vitória da Paz.

A pose favorita da fotografia amadora converte as ocasiões numa reminiscência de sorrisos, numa postura da Paz.
Fotografias, aqui.

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Não fumadores fumadores

Foi uma das descobertas mais surpreendentes, os fumadores compulsivamente japoneses.

A estatística dá sinais de fumo: quase 50% dos homens nipónicos são chaminés que descarregam na nicotina existências obreiras em que falta viver.
Não é uma questão cultural, apenas uma questão aditiva.
O governo do Japão continua a promover campanhas contra o tabagismo, mas apesar dos que bombeiam de morte os pulmões usarem cinzeiros portatéis anti-poluição e existirem locais próprios para o consumo em grupo da muleta social, em muitos estabelecimentos a opção fumador-não fumador não se aplica, tornando os passivos fumadores, ao inspirar a dispersão do incenso que mata.
Sinais de fumo, aqui.

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Palco das maravilhas

Não há regulamento nesta cidade para elevar à microscopia o interesse do momento-impressão. Tokyo rebenta de pessoas e das faíscas despontam personagens saídos de peças de Beckett, do país das maravilhas, de um futuro que não sonhei no passado. A arte joga com a música, a moda brinca com o talento, o show-off dá azos ao acanhamento, nesta dramaturgia em movimento sou tão insólito aos olhos de uns como são para mim outros colegas do palco.

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

A barriga dá horas de silicone

Sem que ouse a generalização, os japoneses não respondem a surpresas, têm de saber com detalhe o que vai acontecer, de que se vão alimentar.
Nas montras comerciais, o Japão sabe aliciar a compulsão consumista a quem tem fome. E dinheiro. Se a solidariedade tivesse o poder do cifrão e se não houvesse a condição do “se”, a fome não murmurava silêncios de quem não sabe o que é.

Olho faminto o brilho do molho à bolonhesa, as bolhinhas da cerveja, o tempero sobre a alface, as pitadas de sal nas batatas, o recorte perfeito do sashimi.
A barriga dá horas de silicone e entro no restaurante. Esta é a verdadeira plastic food, criada por artistas plásticos da nutrição, apenas mais um fenómeno singular ao Japão.
Montras de apetite, aqui.

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

Há coincidências sim senhor

Amor em japonês diz-se... "ai", a interjeição da língua portuguesa relativa à dor.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

Imagens narrativas IV - Pornografia fofinha

O Adult Video é um enorme negócio no Japão, com novos filmes à margem ou não das leis a serem produzidos diariamente. A distância à devassidão está ao entrar de uma loja especializada nos mais depravados fetiches e fantasias obscurecidos atrás das gravatas dos salarymen.

No país do “kawaii”, o culto do que é doce e fofinho, as actrizes são meninas envoltas em áureas de inocência e angelical inexperiência. Aparecem na televisão e imprensa, têm sites oficiais e legiões de fãs dentro do cisma japonês por colegiais. Muitas destas estrelas são recrutadas pelas produtoras em plena rua, providenciando empregos álibi para as que querem esconder a profissão que lhes enriquece as carteiras.

Talvez a menina que dá as boas-vindas preliminares à entrada da loja tenha feito mais de cem filmes, e abandonado a sua carreira pornográfica aos 20 anos. Talvez não seja a primeira vez. Talvez tenha abandonado a carreira mais cedo.

Quinta-feira, Novembro 02, 2006

É dia de matsuri, a hora é de festejar

É dia de matsuri em Kawagoe, “a pequena Edo”. Os matsuri são as festas populares do Japão, carregadas de cor, alegria e xintoísmo.

No matsuri de Kawagoe, quando se cruzam dois mikoshi, os veículos que carregam os espíritos divinos, o ritmo da música e o bailado dos deuses são os instrumentos do duelo. O vencedor segue adiante para encarar contorcido a torrente de pessoas e câmaras fotográficas. Num sem-fim de fotógrafos sem idades e modelos topo de gama, uns divertem-se e outros vêem.
Alguns observam.

Um constante tamborilar escolta o meu olho mecânico pelo íman das crianças que viajam no tempo. Nesta celebração da tradição, os que andam à volta da fogueira são a aparência do futuro que juntam palavras deste tempo sempre novo, a este lugar em que a hora é de festejar.

Fotografias, aqui.

Segunda-feira, Outubro 30, 2006

A fortuna do Yokozuna

Desta vez regulo-me ao anseio de Tóquio e antecipo um mês o esvaziar da bilheteira. Não me arrependo de ter escolhido um dos lugares mais afastados do ringue para assistir ao torneio de sumo (lê-se sumô). A vida é assim: tenho o privilégio de ver os combates na arena de Ryogoku junto a Toshi, o penta-campeão júnior de sumo de Tóquio.

Com a simpatia de uma tradutora, esclarecemos o nosso mútuo interesse. Eu pergunto-lhe sobre o sumo, e a fortaleza de onze anos questiona-se sobre mim: Porque não tens aliança?” “Ainda sou muito novo” não o convence e dá-me força em japonês… “Gambatte!”
Enquanto assisto aos demorados rituais xintoístas que antecedem os combates, Toshi poisa a mão no meu joelho sem que eu entenda porquê. É a primeira criança nipónica que atravessa comigo a fronteira da timidez.

É o desporto com mais fair-play que alguma vez vi. Cinco árbitros ajuízam qual o primeiro lutador a sair do ringue ou a tocar no chão com qualquer almofada de gordura que não os pés. Em caso de dúvida, repete-se o combate.
Ninguém comemora ou reclama. E há em dinheiro em jogo, muito. Vejo o Yokozuna, o mongol Asashoryu, enriquecer 20.000 euros em poucos segundos, entregues num envelope logo após o combate. Nenhum lutador esboçou qualquer reacção.

Traduzem-me o que expressa a confiança do seu diálogo: Toshi quer atingir o estatuto de Yokozuna (grande cinto), seguindo o caminho do sumo, um longo trilho de subserviência e injecção de obesidade. Toshi terá de iniciar-se no ranking a cozinhar para os superiores o chankonabe, a especialidade culinária dos lutadores de sumo, à base de proteínas e muitas tigelas de arroz. Para inchar o seu poderio no ringue, os lutadores dormem depois das refeições.
Mais imagens do torneio de Sumo, aqui.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Genica depois dos 100

O mais velho japonês da actualidade chama-se Tomoji Tanabe. Acorda madrugador para ler o jornal, continua a escrever um diário e não bebe álcool. Tem 111 anos, e é uma das 28.395 pessoas centenárias do Japão (das quais 24.245 são mulheres). É este o país do Mundo em que se vive mais tempo e com mais saúde.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Faltam três ienes

Peço outra cerveja. Faltam três ienes para os 200 que vale mais um terço de litro de álcool no meu sangue. Akane, a empregada que me conhece das nama biru que lhe pedi, diz-me que não pode ser. Não me surpreende. No Japão 200 nunca é 197.
Mesmo que três ienes sejam uma insignificância de 0,02 cêntimo de euro.

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

De volta a Tokyo em trânsito vermelho e branco



Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Ironia da viagem - Matsushima e Nikko

Nos lugares turísticos brinda-me o cinzento do céu.

Matsushima é uma baía que aglomera mais de 250 ilhas (shima) cobertas de pinheiros (matsu), considerada uma das três mais belas paisagens do Japão. Não tive opção senão descair no enliço de pagar para ver, num das dezenas de barcos que turvam a baía.

O templo xintoísta de Nikko foi construído em 1617 em honra de Tokugawa Ieyasu, o primeiro Shogun de linhagem Tokugawa, que durante o Período Edo governou o Japão. Shogun significa General e a administração é um shogunato, com poderes militares e políticos. Resiste aos turistas o "prodigioso Nikko", um retiro espiritual ou uma homenagem à ditadura militar.

Fotografias, aqui.

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Peripécias de viagem para todas as idades

Sem eu lhe pedir anima-me a bateria das sensações, aponta-me o trajecto até Hokkaido, descreve os lugares que já visitou orgulhosamente a pé.
Partilha comigo o bilhete “Juventude 18”, para todas as idades, porque a idade é uma conta de subtrair cujo resultado não é matemático. Este sessentão é um jovem.
Hoje vou caminhar 20 Km, estou a treinar“ e é a irrequietude dos olhos de uma criança que se despede de mim.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Peripécias de viagem - Sendai

Jantar entre amizades de quem passa.
(Misuzu, Tiago, Shiôji, Futoshi, Rie e Natsuko)

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Hirosaki

Chego a Hirosaki quando o Sol cora por se despedir. Tenho de decidir em instantes se fico ou continuo por mais terras no pouca-terra. Quero ficar pelo que leio no guia sobre o castelo, mas a minha conta bancária está indecisa. É ela que ouve a resposta no Posto de Turismo: o Hotel mais barato é o Cápsula, que inclui onsen. A conta bancária não torce o nariz e eu ergo as sobrancelhas. É a oportunidade de aliar duas estreias.



O espaço nipónico é racionalizado à densidade populacional. Normalmente exclusivo a homens, a cápsula é um beliche fechado, com televisão, rádio e despertador. Um mundo machista no qual vou descobrindo as regras sem perguntar.

Dispo-me e entro no onsen sentindo-me um alienígena. De imediato o banho quente ferve-me de relaxe.
Do you like the japanese hot springs?”, pergunta-me um senhor barrigudo. É o Professor Kozuma. Os seus alunos de Psicologia Desportiva convivem no onsen descontraidamente nús, numa aula entre a sauna e a água quente e a sauna e a água fria. É, no mínimo, japonesa, a forma como conheço o psicólogo da Selecção Nacional de Judo. Convida-me para me juntar ao jantar. Despido de qualquer preconceito, aceito. O Prof. Kozuma acaba por me oferecer a refeição: a minha conta bancária esfrega as mãos e eu encho a barriga.

No dia seguinte, mostram-me no Turismo a bicicleta disponível. É pequena e feminina, mas é grátis, e vou num pedalar até à Rua dos Samurais: “A bicicleta dada não se olha a cor e o tamanho.”
Pelo caminho provo as famosas maçãs de Hirosaki. A cada dentada, cresce o desejo de voltar a este ar respirável de afabilidade que não existe na cidade. Lugares onde o mundo não acaba senão no recorte montanhoso do horizonte, aconchegando vidas em horas de pacatez.

Mais fotos de Hirosaki, aqui.

Terça-feira, Outubro 03, 2006

Peripécias de viagem - Encontros ferroviários

Arregala os olhos mal invado a carruagem, pergunta-me se sou americano.
Steven é a primeira pessoa que eu encontro que me diz "I’m sorry but I can’t tell you my work.”
As minhas interrogações aderem à velocidade do comboio. “If I like Bush? Oh absolutely, he is defending our country.” Desvendo finalmente o mistério das armas de destruição maciça, estavam no Iraque mas foram escondidas na Síria.
Apesar das suas respostas confiantes, descubro neste encontro fugaz que Steven investiga a ameaça nuclear da Coreia do Norte, numa base americana em pleno deserto de arroz.
O que Steven não sabe é que acaba de falar com um espião disfarçado de viajante português, maravilhado com as horas do dia passadas em comboios regionais a reter a paisagem japonesa.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Sobre a memória sob carris

Ouço os gritos de silêncio entre a melodia experimental dos instrumentos carris. A maioria dos passageiros não admira a paisagem como eu faço. Não há conversas corriqueiras, o melhor é descansar... Outros solicitam afecto aos botões do telemóvel, o tamagochi social em que se viciaram os japoneses.
À minha frente, a menina retoca a maquilhagem durante vinte minutos, quilómetros ou paragens, já não sei.

Sei que sempre venerei mapas. São as cartas mais mágicas: depois de percorrer o trajecto no mapa pequeno de papel poderei projectar-me para sempre no mapa infinito da memória.

A criança que me acena, os rapazes consolados com as consolas, o senhor que me diz “Oh! You are traveling alone, that is very good very good!”, a mulher mais bela no lugar mais remoto, os olhares curiosos, a simpatia do pica que me empurra nos transfers de estação, nos transfers de espaço… É isso mesmo que eu faço, um transfer de mim próprio nos caminhos infinitos que percorre este estranho veículo em que vivo. Viajar é o meu combustível.

No comboio do Nippon, aqui.

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Peripécias de viagem - Hokkaido

Talvez não seja bem-vindo pois não ouço o habitual cumprimento: Irashaimasse!
Sou estrangeiro e tratam-me com uma diferença de indiferença. Mas entro no restaurante de sushi com a mesma confiança da estreia.

Outro saqué, por favor. O chef lá se apercebe que me aventuro sozinho pela cultura nipónica. Ao meu lado, três japoneses deliciam-se com sushi e sashimi. Algo se mexe numa das tábuas de madeira onde é servida a refeição. Não resisto: “Sore wa nan desu ka?”
Isto? Lula! Ikaga desu ka? A pergunta é retoricamente gentil. Oferecem-me lula viva e eu não me faço esquisito.
A luta é entre os meus molares e os movimentos moluscos. Mas de surpresa vencem as papilas gustativas.

Terça-feira, Setembro 26, 2006

Seishun 18-Kippu II - Hokkaido

Completo o objectivo de chegar a Hokkaido em dois dias ferroviários. Na ilha do Norte sente-se na brisa a vizinhança da Sibéria. A paisagem altera-se. Hokkaido é um microcosmo do mundo nipónico, um paraíso de natureza intacta.

A efemeridade da estadia impele-me a pressagiar um regresso. Galopei de bicicleta mas não passeei na neve dos vulcões. Provei o peixe fresco, mas não apreciei o Festival do Gelo. Voltarei para ver as raposas sob a protecção natural e conhecer a minoria Ainu, a única do Japão. Visitarei as pequenas ilhas junto à costa...

Leio o Japan Times pela manhã: “Japanese Fisherman Killed by Russian Patrol”. Perdura desde a 2ª Grande Guerra o litígio territorial entre Japão e Rússia sobre a miudeza deserta das ilhas Habomai.
Parece que é o único local onde o mar é suficientemente profundo para a travessia submarina.
Deito o jornal ao lixo e sigo para o Parque Nacional Onuma. Prefiro ver a realidade da Mãe-Natureza que ler a irrealidade da natureza do Homem.

Mais fotos de Hokkaido, aqui.

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Seishun 18-Kippu I

Comando-me para a frente. Procuro o meu Norte, vasculho o Norte do Japão. Nos feriados de Agosto decido atirar o corpo contra a parede da inércia. Aproveito os dias, torno-os diferentes, logo, maiores. Estico o meu tempo na fita quilométrica da aventura.

Após comprar o “Bilhete Juventude 18”, esperam-me cinco dias de deslocações em comboios regionais. É a forma mais acessível à carteira para viajar no Japão: 16 euros cada dia. No primeiro dia gasto um euro por hora. Demoro dezasseis horas para chegar a Akita, a 600km de Tóquio.

Não tenho pressa. No lento deslizar dos carris, descongelo a minha vontade de observar a paisagem do Nippon que ainda resiste à detonação da urbe. Enquanto serpenteio a costa espinhosa de rochedos, fundo-me entre o verde dos campos de arroz e o azul que dissolvo do céu à profundeza do mar.
Em Akita dormirei em qualquer canto da Estação. Quero usufruir dos lençóis de rua do país mais seguro do Mundo. Acabo por descansar num banco em forma de pé gigante. Logo hoje, que dei um passo de gigante na vida pé ante pé.

Paisagens sob carris, aqui.

Terça-feira, Setembro 19, 2006

Mais alto na periferia

A Chinatown não é a única razão que me faz viajar até Yokohama. Ainda não fui lá, explico a mim próprio.

Esta cidade da periferia de Tóquio tem quase o dobro dos habitantes da Grande Lisboa. É como se o Porto estivesse à saída da 2ª Circular, numa proporção nipónica. Yokohama é a segunda maior cidade. E a que tem o prédio mais alto. O Landmark Tower orgulha-se de ter o elevador mais rápido do Mundo. A Chinatown é a maior do Japão.
Desencubro algo de português nesta tendência de Yokohama para facilitar tudo com o superlativo relativo de superioridade.

Pouco depois de chegar, entro na China. Após o período feudal Edo, em que o Japão se isolou do Mundo, Yokohama abriu a porta do contacto internacional: o Porto foi inaugurado em 1859. Um século depois, a Chinatown era oficializada.
Predomina o vermelho. O comércio é diferente, os chineses empurram os produtos aos clientes. Almoço rodeado de dragões.

Volto ao Japão passeando no cais, e estranho o espaço que tenho para caminhar. Não há obstáculos no jogo dos peões. O oceano brilha-me nos olhos recordações das cores de Lisboa.

Subo no elevador mais rápido: 45Km\h de zumbido nos ouvidos. Chego ao 69º andar excitado com a potência da altura: vejo Tóquio ao longe. É invisível a fronteira do inchaço urbano.
Espero o pôr-do-sol, frustrado por não poder ver o cume do Monte Fuji, o maior do Japão.
No prédio mais alto sou o mais português dos que partilham este planar estático.

Mais fotografias, aqui.

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

Imagens narrativas III - Golos de Portugal

Quatro letras apenas esclarecem Portugal: Figo. É a palavra-chave do meu país aos olhos afiados de curiosidade.
Os povos do Mundo compreendem o idioma do futebol. Acontecimento recente, as fintas fenomenais e os abdominais de Cristiano Ronaldo proeminam de fama.
Por fim, não há nenhum japonês que desconheça São Francisco Xavier, marcador de golos de cristianização nas terras onde o Sol nasce.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Retrato nas brasas de areia

Encontros em sintonia nas ruas do mundo, gostos comummente circunscritos aos trilhos do ser-se humano, partilhar a arte das ideias, as frustrações do sistema... amuralham a força da sinceridade. A amizade com Naoko é a manifestação aforística do acidente da vida.

Acompanho a sua miscelânea Coreia-Japão na praia de Chigasaki, em busca de modelos para a sua revista. Invejo-lhe a profissão, embora não a pudesse desempenhar: o idioma não é um obstáculo para a motivação de Naoko, que escuta um oásico consentimento em dezenas de rejeições pela timidez.

A cada passo seu nas brasas de areia, com a aragem do oceano a reclamar pelo corpo escaldado, desvendo artimanhas de retrato, retenho a genica do caminhar vulcânico.
Nunca me disse, mas eu descortino facilmente: o que Naoko mais gosta é de viver.

Numa praia japonesa, aqui.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Orquestra de religiões

A religião permanece uma página em branco no meu caderno das conclusões.
Os braços de Shiva, a visão de Buda, um objecto-Deus xintoísta intrigam-me como a lenda do Santo Graal: “Se Deus quiser!”, mas qual deles? Entretanto vou sendo deus de mim próprio em letra minúscula.

A grande maioria dos japoneses aplica à religião, como a tudo, uma prática absoluta. Visitam templos xintoístas uma vez por ano para desenlaçar um Cupido desconhecido, casam em igrejas cristãs porque o cinema invade o sonho do vestido de noiva, despedem-se das almas em lutos budistas. A história de harmonia xinto-budista do Japão faz emergir ao meu dicionário: sincretismo.

Se um dia estiver certo que as igrejas não são empresas, também acreditarei em vários deuses. Até lá, vou preferindo estar sentado de olhos fechados que esventrado de pés furados.


Mais fotos aqui.

Quinta-feira, Agosto 31, 2006

Por baixo de mim

17h:18min. Uma onda de 3 atinge Richter.
Abana o prédio, a Natureza é mais forte que o betão. Os livros aguentam-se na estante. Eu fico preso à cadeira esperando que termine. Em segundos respeito como nunca a bola terrestre por baixo de mim. Um tremelique maior e...

"Ainda não foi desta", comenta-se no escritório.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Mitos portugueses II - Gueixas

Foi durante a ocupação americana do Japão que surgiu a expressão "gueisha girl", denegrindo a imagem da "pessoa de artes". As gueixas não são prostitutas.

Aprendem as artes da dança, pintura, sedução, música, canto, uma formação de treino rigoroso. Os rostos pálidos e lábios rosados expressam o ideal de beleza. Seus dotes e inteligência proporcionam a homens abastadamente poderosos momentos de descontracção em reuniões e jantares.
Entretêm, nunca vendendo o corpo. Apenas companhia e cultura, que pode custar muitos ienes. É um mundo íntimo e misterioso. As gueixas também aprendem a arte de guardar segredos.

Terça-feira, Agosto 29, 2006

A eficiência da chave mágica

Neste mecanismo formigueiro, torna-se uma rotina de espontaneidade maquinal refugiar-se da tensão urbana no esconderijo das pálpebras. Depois, o cansaço das horas do nó da gravata e dos poros transpirando humidade fecham o abrigo com a chave do sono.
A fermentação alcoólica do arroz também pode contribuir. A segurança é um regalo para as malas Louis Vuitton das belas nipónicas adormecidas. Na toupeira metropolitana, a eficiência repousante dos guerreiros citadinos segue lições budistas. Os corpos não escolhem horas, camas, e razões para isolar as mentes do Nippon em quimeras de sossego na escuridão do paraíso em que tudo se vê.
Não adormeça com o efeito-niponico.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Valete de paus

Tenho trunfos, duques e rainhas no baralho japonês de pessoas. Enlaça amizades e é indispensável no mundo dos negócios, indignamente a base de todos os mundos civilizacionais.

É pela sua preciosidade que o meishi, o cartão de visita, é entregue e recebido com ambas as mãos, lendo respeitosamente o nome e o cargo, em Rōmaji - alfabeto românico - e nos caracteres Katakana.

Para não ser um Zé-Ninguém,
torno-me num rectângulo de papel alguém,
literalmente metido num bolso por outrem.





Arranhando os céus

Sinto o desconforto na barriga na viagem quasi-espacial do elevador. Nunca havia subido tão alto na megalomania do cimento.
Esta cidade não se cansa de conquistar espaço à atmosfera. Tiro partido do 60º andar. É a primeira vez desde que pernoito em Tóquio que consigo vislumbrar uma estrela cintilante.
Arranho o céu, invejo as asas dos seres mais livres, recebo as energias do sorriso da Lua, olho os pontos humanos que se movem no abismo em vertigem, olho para dentro de mim, sou tão pequenino.

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Hanabi

E de repente o céu explode flores de fogo.
A pirotecnia tradicional japonesa, arte de famílias, une milhões de olhares deslumbrados. O público sentado pasma de surpresa, quando, em várias noites de Agosto por todo o Japão, corações, Pokemons, e sorrisos de faíscas coloridas irrompem o firmamento.

Refugiado da multidão no terraço de um prédio, contemplo o fogo desfrutando o jantar. À volta das cervejas, desfrutam os amigos japoneses quando digo que no meu país o céu explode durante vinte minutos. São as flores de fogo, o Hanabi, que durante uma hora e meia tornam vivo o jardim celestial.
Fotos em efeito-niponico.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

O-bon

É crença nipónica que as almas defuntas voltam do paraíso durante o período de feriados budistas, o O-bon.
Como na terra onde fui semeado, as famílias visitam os túmulos dos que voluteiam nas memórias. Mas o vácuo afectivo é anestesiado pelo Bon Odori: é num rodopio alegre, em harmonia musical e trajes coloridos, ao ritmo de palmas e movimentos paulatinos, que os japoneses consagram os entes queridos.

Brinda-se a genealogia sentimental com uma festa. As almas voltam, não para ver lágrimas de saudade mas danças de alegria, amor e amizade. Ao invés de se chorar a morte, celebra-se a vida.


Evoca-me o silêncio cinzento, sob o uivar constrangedor dos pinheiros, no cume da aldeia que cultiva sementes de vida. A próxima vez que a visitar, a minha Avó não vai fazer-me chorar, antes eu vou fazê-la sorrir.

Mais imagens em efeito-niponico.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Provérbio japonês

Se o cão anda na rua, um osso pode encontrar.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Hachiko Crossing

A juventude comanda Shibuya. Um bairro em movimento, bombeado pelo ininterrupto Hachiko Crossing. O abraço das cinco passadeiras é considerado o mais inundado do mundo: ondas de vidas transeuntes surgem na desordem da maré definida pela cor do semáforo.
Por vezes sinto que o meu corpo ressaca da insignificância na multidão e o meu olhar de todo o aparato multicolor. Aqui, enquanto espero o sim verde do relógio urbano, inspiro a máxima sensação do que é viver em Tóquio.

Fotos em efeito-niponico.

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Lixos aos seus lugares

No Japão as regras não são deitadas ao lixo. Todos participam no ciclo da reciclagem. Dois caixotes em cada casa: combustíveis e não combustíveis. Garrafas e latas seguem outro caminho do despejo.

O consumo doméstico é temporizado. Apenas em dias estabelecidos e horários rigidamente matinais se acomoda o lixo na rua. A forma de vazar o entulho é o principal factor de consideração entre a vizinhança nipónica.

O repugnante transforma-se em reutilização, emprego e melhor ambiente, através de um conceito que não aparece em todos os dicionários lusos.

Recicle-se em efeito-niponico.

Segunda-feira, Julho 31, 2006

Hino Japonês

Que sejam vossos dez mil anos de reinado feliz
Governai, meu Senhor, até que os que agora são seixos
Transformem-se, unidos pelas idades, em rochedos poderosos
Cujos lados veneráveis o musgo cobre.

Quinta-feira, Julho 27, 2006

adj. Aquele que observa.

Indivíduo, considerado em relação ao ponto que ocupa na superfície do globo e aos objectos e fenómenos que o rodeiam. Espectador. O encarregado de observar e registar fenómenos de ordem científica. (Lat. observator)



Observe e absorva em efeito-niponico.

Terça-feira, Julho 25, 2006

Smile!

(^_^)
\(^ ^)/
(’-’*)
( ̄ー ̄)
(ノ^_^)ノ
d(-_^)

Sexta-feira, Julho 21, 2006

O que me dita sensações

Mais estimulante que viajar na serpente mecânica é esperar o horizonte. A estação ferroviária será sempre um dos meus locais predilectos. Destino: Kamakura.


Já calculava os turistas atraídos como abelhas a este meloso local, intrometendo-se nas meditações do Grande Buda. Continuo a tentar entender a religião. Simpatizo com este ser gorducho, inspirador.

Continuo a tentar entender o frenesim turístico. O Buda de 13 metros construído no século XIII tem o azar de ter a barriga alugada a térmitas excursionistas, sem descanso de flashes e fotos de grupo coleccionadoras de lugares.

Descobri com Ele que a indústria dos souvenirs é universal. Como Ele, pus-me a meditar sobre o assunto à volta de incontáveis templos, desabrocháveis flores e inenarráveis multidões...
O melhor é cerrar os olhos e cogitar no escuro.

Imagens em efeito-niponico.

Quinta-feira, Julho 20, 2006

Imagens narrativas II


O basebol é o segundo desporto mais popular no Japão.
O primeiro é o shopping.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Saturday night drum n bass fever

Farto-me facilmente das noites fechadas na discoteca. A minha cabeça cansa-se do álcool, a minha roupa do fumo, os meus olhos do meat market socialmente decadente. Estas noites existem no Japão. Mas há outras em que o assédio e a embriaguez são diferentes. Todos pelo mesmo: a música. Sem flirts e empurrões.
O WOWB contagiou-me.

Imagens em efeito-niponico.

Terça-feira, Julho 18, 2006

Domingo de metro

Domingo, Julho 16, 2006

Ao acordar

A vida é pequena demais para não se descobrir como o mundo é grande demais.

Sexta-feira, Julho 14, 2006

“Konnichiwa! Why are you here alone?”

Esta cidade de multidões provoca solidões. Quem não convive bem sozinho não é feliz em Tóquio. Eu sou, muito. Sempre gostei de enfrentar a vida sozinho. Em grupo somos mais um, a parte do colectivo. Sozinho somos um, o todo individual.

No bar das cervejas baratas combatia a humidade de Tóquio, distraído com os mp3 de olhares nipónicos intrigados e berros estrangeiros alcoolizados.
O casal ao lado dirige-me a palavra: “Konnichiwa! Why are you here alone?”. Este bonito casal não iria entender nenhuma resposta que lhe desse. Porque as pessoas são diferentes. Descobri no Japão que a vida é uma anedota e a piada está na diferença.

“In Japan we don’t usually go out alone. It’s sad.” Não tenham pena de mim porque eu estou feliz. Mais triste são os flirts do álcool, não acham? Tenho muito de que falar comigo próprio, e sempre que estou sozinho conheço novas pessoas.
Minutos depois conheço duas japonesas amigas do casal. Uma sonha com o México como eu um dia sonhei, a outra é a Björk em pessoa, e ficou minha amiga. Talvez esta seja a melhor resposta para a dúvida do casal.

Os momentos de lazer sabem agora melhor do que nunca, porque o seu tempo é reduzido. O trabalho ocupa o dia por explorar que passa lá fora, passivo ao ar condicionado e à luz artificial do escritório...

Domingo, Julho 09, 2006

Lá em casa tudo bem II


No Japão, o calçado fica à entrada da casa. É higiénico, é prático: talvez por isso seja um costume japonês.
Todas as pessoas que entram na Guest-house Kudanshita seguem esta regra.
Todas as pessoas que entrarem nas minhas futuras casas vão seguir esta regra.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Diálogo de hormonas

Testosterona A: "Então como foi ontem à noite?"
Testosterona B: "Cheguei a minha casa hoje às 8 da manhã..."
Testosterona A: (ri-se)
Testosterona B: "E tu este fim-de-semana que fazes?"
Testosterona A: "Epá, Sexta, Sábado e Domingo tenho jantares com três amigas diferentes."
Testosterona B: "Bem-vindo a Tóquio."

Terça-feira, Julho 04, 2006

Yoyogi - o ínicio

Não sei se o parque Yoyogi é um mundo ou um conjunto de mini-mundos. A vida está lá como está no Planeta. Seres diferentes expressam diferença. Uns cantam, outros dormem. Outros passeiam, outros passeiam cães, coelhos ou doninhas. Por entre discos sem retorno e malabares profissionais esvoaçam corvos que grasnam ao ritmo dos jambés. Bolas de futebol cruzam bolas de basebol. Saxofones embalam modelos fotográficos em poses comerciais. Estridentes guitarras eléctricas combatem sereias nipónicas tocadoras de birimbau. Petizes felizes tomam banhos alegres. Réplicas vivas do rei do rock provam que é imortal. Piqueniques familiares enchem tardes de Domingo. Breakdancers giram ao lado de aprendizes de sapateado. Grupos de salsa aprendem os passos correctos.

Eu aprendo os passos da vida e fico a pensar que poderia eu expressar neste mundo Yoyogi… Não canto, não danço, não sou expert em nada. A minha expressão é observar. Que sei eu senão viajar?

Mais imagens de Yoyogi em efeito-niponico.

Sexta-feira, Junho 30, 2006

Querido diário

No ano de 2004, a indústria japonesa de moldes produziu moldes e cunhos no valor de 412 biliões de ienes. Desta quantia, a produção de moldes para plástico representou 38,7%: 159 biliões de ienes.

Verificou-se em apenas dois anos uma subida abismal do preço médio unitário dos moldes para plástico, de 1.291.000 ienes em 2002 para 2.470.000 em 2004: um acréscimo de 191%.

Terça-feira, Junho 27, 2006

Dilemas

Passo o fim de semana nos espaços que mais gosto ou vou conhecer novos lugares? Bebo uns copos à noite ou caminho uns passos de manhã? Ouço música rock ou tradicional japonesa? Poupo ienes para grandes viagens ou dou saltos insignificantes na periferia? Estudo os katakana ou estudo os hiragana? Vou de metro para Shibuya, Harajuku ou Omotesando? Almoço com a Ayumi ou janto com a Megumi? Quando voltar a Portugal, fico uma semana ou aguento-me duas semanas?

Domingo, Junho 25, 2006

Fotografia - impressões nocturnas

Amizade reencontrada

Encontramo-nos na periferia de Tóquio. Reconhecemo-nos facilmente, tal a expectativa. Faço uma vénia, Ryuji estende a mão. Finalmente o abraço, universal. Perguntas incansáveis acompanham os passos por entre os domingueiros em Omyia. Minutos depois estamos no shopping a ver cãezinhos robotizados. Ryuji é japonês…

Professor de crianças brasileiras, condutor, educador de infância. O trabalho ocupa-lhe mais de doze horas por dia. Procura novo emprego, na capital, em que possa ganhar mais e trabalhar menos horas. A ensinar português. Este amigo viajou e estudou no Brasil e em Portugal com os seus próprios recursos.

Já numa izakaya (tasca), os risos inebriados pelo saqué recordam os colegas da equipa de futsal da Universidade de Aveiro. Durante os treinos, preferia sempre jogar numa equipa internacional, ao lado do Ryuji. Construímos esta amizade dentro do campo. Diz-me: “És o primeiro amigo que fiz em Portugal e no Brasil que reencontro. Nunca pensei que alguém viesse ao meu país.”

(fotografias em efeito-niponico)

Sexta-feira, Junho 23, 2006

Em missão - Feira Interior Life Style 2006

Empresas portuguesas e o precioso apoio dado pela Delegação do ICEP.

Gestão de neurónios

Cada vez estou menos tempo absorvido pelo ecrã do computador. O tempo voa, os neurónios também.

Fiz as contas... se trabalhar sete horas por dia em frente ao "pc", 11 meses úteis por ano, durante mais 30 anos, vou passar 1925 dias a rebentar a visão.
São 5 anos da minha vida. Não acreditei. Fiz as contas outra vez. Bate certo. E quanto me diverti eu nos meus primeiros cinco anos de vida, sem computador.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Imagens narrativas I

Passeava sem rumo nas ruas decadentes de Shinjuku. Não pude deixar de disparar. Gosto da cor. Dos cabelos, das roupas ondulantes. Das coxas do Sol artificial. Do táxi.

Mostrei a foto a uma amiga japonesa. Explicou-me o que faziam os rapazes de negro. No Japão o assédio de rua tornou-se habitual: fatos escuros oferecem companhia para jantar, para conversar. As casas de sensualidade mudaram de sexo. E vieram para a rua.

Não há título melhor para esta narrativa de uma só imagem que um pormenor dela própria: "Everybody play the game".

Terça-feira, Junho 13, 2006

Tiagosan?

San significa notável e é usado como instrumento de respeito na comunicação em japonês. Uso este sufixo para tratar as senhoras com quem trabalho: Takei-san, Takaoka-san, Hasegawa-san, Maekawa-san, Nagai-san e Okumura-san.

Tratam-me por Tiago-san. Tiagosan é o meu alter-ego cibernético, não me apresento assim no Japão. Mas quase: Tiago Santo, a deturpação que o meu nome sempre escondeu.

E ao 7º... futsal!

Se há desportos que eu gosto são os colectivos.
Se há desporto colectivo que eu pratico é o futsal. Se há futsal, há uma bola e um campo.
Se há um campo, no Japão, pode ser no 7º andar.








(o quadro com o nome dos jogadores)
(mais fotografias em efeito-niponico)

Quinta-feira, Junho 08, 2006

Ao ritmo das gravatas

O estágio na Delegação do ICEP em Tóquio é o meu primeiro emprego. É o meu primeiro horário laboral: das 10h às 18h, sem falhas. A gravata também não falha. O ritmo que ela me imprime é assustador: a viagem de segunda a sexta-feira é um rio ondulante rápido demais de se atravessar. O fim-de-semana, uma tarde numa praia, ao sol. A noção de segundo alterou-se.

1982 D.C.

1982, ano que mudou o mundo, lê-se assim em japonês: sen kyuu-hyaku hachi-juu ni.

Exmo Senhor Dr...

Hiraganas

O idioma japonês é uma mistura de três alfabetos: Hiragana, Katakana, e os apavorantes Kanji. Os dois primeiros são silabários sonoros, com 48 caracteres cada um. Os Hiragana permitem escrever qualquer palavra em japonês. Os Katakana são usados para escrever palavras estrangeiras, como Tiago ou Ferrero Rocher.

Aprendi sozinho os Hiragana em duas semanas.
Qualquer pessoa com vontade de aprender o consegue seguindo o acessível método de aprendizagem por imagem associativa. Memorizei o "shi" em segundos, por o associar a um chicote. O "tsu" é uma onda, feita por um tsunami. O "to" é um touro. E assim por diante, todos têm uma imagem associada.

Foi o meu passatempo favorito neste primeiro mês japonês: é divertido ler sem saber o significado do que leio.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

Design Festa

Estava desde o primeiro dia na minha agenda: 21 de Maio, o maior evento artístico da Ásia. No Design Festa qualquer pessoa pode expor aquilo que cria. Até pode não expor nada: "tudo é arte" recordo uma caricata professora da universidade.

Os criadores amadores mostram o seu talento, sem custos e timidez. Muitos sonham ser artistas, como os que se dizem artistas, que não se misturam com esta plebe criadora, e talvez fiquem pelo estúdio a assinar autógrafos milionários.

Disperso por uma área gigantesca, fui contagiado pelo fervilhar de criatividade artística, de comunicação multi-meios, de sorrisos humildes.
Adoro incubar pensamentos. Transformar algo que não existe em existência, material ou conceptual. É uma relação directa: quanto mais se pensa, mais se pensa. Sou um géiser de ideias, fui ao paraíso criativo.








(mais imagens em Efeito-Niponico)

Treme

Acabo de sentir um leve abalo sísmico.
Uma onda fez tremer as paredes, a minha barriga também.
Foram apenas uns três segundos, habitual em Tóquio.

Terça-feira, Maio 30, 2006

Em Tóquio a viver...

Em Tóquio a viver, faço o que me apetecer.
Ninguém vai saber.
Em Tóquio a viver, faço o que entender.
Ninguém vai saber.
Assim é que gosto de viver.

Lá em casa tudo bem I

Internet, espaço cibernético que aumenta o meu poder. Escolhi o meu quarto antes de chegar ao Japão. Um dia encontrei e decidi-me: Quarto 501. Janelas, espaços psicológicos que aumentam o físico.

Vivo junto ao coração de Tóquio, o jardim imperial, no bairro de Kudanshita (lê-se "kdãnshta") numa gaijin house. Gaijin significa: "não japonês". Lá em casa somos três.

Nascido num berço belga diplomata, sorte de nascença que o fez estagiar em países como a Síria, o Equador, as Filipinas ou a Austrália, David deixou o trabalho em Bruxelas para encontrar emprego em Tóquio. "Eu nem sou muito aventureiro", disse-me. Ainda não encontrou.

O Alexei é russo. Tem um amigo especial brasileiro. Cozinha receitas especiais da Sibéria. Não me deixa assobiar em casa. "Dá azar", esta regra russa que vou quebrando de vez em quando (talvez a regra portuguesa da casa).


(mais fotos em efeito-nipónico)

KAMPAI!!!

Os japoneses bebem muito. O álcool faz parte da sua cultura e o estado de embriaguez também. Ao brindar, diz-se: "KAMPAI!"

Em Portugal, diz-se "chin-chin".
Chin-chin é a palavra japonesa para referir o orgão genital masculino.

Quinta-feira, Maio 25, 2006

Auto-retrato

Terça-feira, Maio 23, 2006

Claustrofobia

Já estou em condições de confirmar a claustrofobia que se diz sentir quando se está no Japão. O betão aperta as pessoas, as pessoas apertam as pessoas, o estado Lost in Translation é asfixiante. Com isto eu lido lindamente.
O que me sufoca é o meu passaporte: o meu visto é mesmo só de um ano.
Confirma-se a claustrofobia...

Mitos portugueses I - Táxi

Ainda no Portugalinho, ouvia as histórias de turistas que já tinham visitado o Japão. Primeiras impressões: "Caríssimo! Só de táxi do aeroporto para Tóquio pagámos 50 contos!!!"
É verdade que esta viagem pode custar mais de 250 euros.
É verdade que os taxistas usam luvas brancas.
Mas também é verdade que qualquer viajante ou mesmo turista prevenido sabe que existe um Limousine Bus, que sai da porta
do aeroporto cinco vezes por hora e que custa... 20 euros.

À portuguesa, da parte se faz o todo.
À portuguesa, nada se prepara, tudo se repara.
À portuguesa, se escolhe o caminho mais fácil.

Provérbio japonês

Se eu não tivesse ossos, queria viver no teu corpo.

Sábado, Maio 20, 2006

Domingos excêntricos em Harajuku

Dos quilómetros que já percorri, é na extravagância de Harajuku que me retenho mentalmente. Este bairro é um epicentro de moda íman para a juventude contra-cultura desde que o mundo internacional aqui se concentrou nas Olimpíadas de 1964.

Mais do que os originais vestidos e maquilhagens, é a quantidade de disparos fotográficos que me abalroa, para divertimento dominical de jovens nipónicas numa passerelle à entrada para o Santuário Meiji, o mais importante de Tóquio.

Nesta guerra pela imagem conquistada, balas de surpresa são disparadas por fotógrafos ocidentais e tiros de canhão profissionais por invulgares repórteres japoneses. A cada detonação é ver os sorrisos orgulhosos das excêntricas meninas a agradecerem a atenção militar da Fotografia.

Não consigo imaginar quantos projécteis pictóricos são disparados num Domingo em Harajuku, mas tento confrontar a quantidade a um dia da Grande Guerra. É que chegado ao seu quartel, o soldado da Fotografia verifica que tinha gasto, sozinho e em poucas horas, 187 munições.


(mais imagens de Harajuku em Efeito-Niponico)

Domingo, Maio 14, 2006

Golden Week

Quis o destino que a chegada ao Japão coincidisse com a Golden Week, a maior época festiva do calendário nipónico. O termo, criado por produtores teatrais que viram as receitas aumentar desde a lei de 1948, refere-se ao ciclo de três feriados consecutivos da primeira semana de Maio, quando se festeja a constituição, a nação, a infância.

É o período do ano preferido para viajar, em que as famílias aproveitam um período de convívio irrealizável durante a semana laboral: muitos papás do Japão não vêem os filhos durante os cinco, ou seis, dias de trabalho.
Também para mim foi uma semana de viajante, não de estagiário trabalhador. Foi o adiar da rotina por uma semana, de ouro.
Com os minutos aproveitados desde o seu nascer, o Sol aqueceu-me os passos deambulatórios pelos bairros de Tóquio. E ao sentir a emoção de pisar este solo longínquo, voltei a sentir-me incógnito, livre.

Foi a semana mais preenchida, sentida, que alguma vez tive. A Golden Week entra directamente para o pódio dourado das semanas da minha vida.

Passeios sem rumo em insónias matinais.

O cruzamento de Shibuya numa hora morta.

(mais fotografias em Efeito-Niponico)

Terça-feira, Maio 09, 2006

À esquerda, a solidão confortável

As asas do desejo poisam no Aeroporto de Narita numa manhã de gratidão solar. Um incerto jet-lag e um certo fat-bag não contrariam a tranquilidade que sinto. Tranquilo, espero as dúvidas dos senhores da alfândega. Tranquilo, vejo os outros passageiros e o tempo a passarem, tranquilos.

Faço o trajecto de autocarro até Tóquio de olhar esbugalhado com as novidades, e já no alvoroço de Shinjuku, dou por mim a rir-me sozinho ao notar que caminho em contra-mão. Num ápice, o estagiário esquerdino assimila a diferença da direita ocidental para a esquerda oriental.
Caminho pela esquerda de olhares recortados que me cortam o coração, viro à esquerda e tenho as chaves do meu futuro ninho. Tudo planeado com cliques num botão do lado esquerdo.

Imerso numa solidão extrema de monólogos interiores, passo os primeiros dias à volta de Tóquio à volta de mim.
Do pouco que digo em japonês retribuem-me ruídos indecifráveis. O choque de culturas é pura diversão, quais embates de carrinhos-de-choque. Não tenho ainda a carta de condução de viatura cultural, e a ingenuidade assola-me a cada segundo: a ingenuidade de quem provém de outro lado do mundo, de outro tempo do mundo.


(mais fotografias em Efeito-Niponico)

Quinta-feira, Abril 27, 2006

Revolução do 27 de Abril

Dia 27 de Abril de 2006. É hora da minha revolução.
Vou deixar cair o meu regime cultural. Vou deixar cair o meu regime económico. Preparo-me para ser independente pela primeira vez na minha vida.

11h40 da manhã, na rádio ouvem-se os motores do avião.
É o sinal para marchar em frente. Liberdade...

Troco cravos por sakuras, numa revolução do atlântico para o pacífico, do pacífico para o frenético. É na música que me refugio em momentos de ansiedade. Nos silêncios infinitos de concentração, as melodias dão ignição à minha motivação.

Sinto um vazio interior que se prepara para receber uma enchente de sensações.
É esta a distância da minha revolução: a distância do vazio para o cheio.
Do outro lado do mundo ninguém me espera,
eu espero tudo de alguém que não sabe que me espera.

Quinta-feira, Abril 20, 2006

Na Bagagem do Viajante

“Foi assim sempre que gostei de caminhar, vinte ou trinta quilómetros sem um descanso, apenas o rápido sorvo na bica de uma fonte, e ala!”. José Saramago, Na Bagagem do Viajante. É o primeiro livro que leio do nobilíssimo escritor e o último de autoria portuguesa antes de voar para Tokyo, no próximo dia 27 de Abril, finalmente uma data confirmada.
Em períodos de preparação de viagens, há sempre um bichinho que me invade. Não é o bicho-carpinteiro, esse está sempre dentro de mim. É o bichinho viajante que incomoda pela ânsia que sente em viajar. Não gosta da tarefa quase frete de fazer a bagagem. Prefere cantar “pegar na trouxa e zarpar”.

Incontornavelmente, a tarefa de fazer a mala, construí-la peça por peça, seguindo a linha de produção, que fora já desenvolvida pelos fabricantes de malas, é repetida no acto de fazer a mala, por viajantes e turistas em vésperas de deslocações: dobrar camisas, acomodar a roupa interior, a organização eficiente do espaço, a lista de afazeres e bagagem a levar ainda com o v de visto por apontar.
Agora que deixo o quartel-general genealógico por mais de nove meses, há que seleccionar e quantificar as substâncias tangíveis, aquelas que ocupam espaço, quilos e cifrões nas malas, na bagagem do viajante. Os escritos de Saramago embalaram-me para as substâncias intangíveis, que não cabem na mala mas fazem parte da bagagem do viajante.
Da bagagem que não levo na mala, não me posso esquecer da técnica vital do nó da gravata, ainda por aprender, tarefa que vou realizar apenas todos os dias de serviço; treinar a técnica útil do manejo dos hashis, em português “pauzinhos”, para levar o arroz à boca; tomar as doses de vacina contra a febre tifóide e a encefalite japonesa; conseguir um nível sobrevivente do idioma japonês, e muitas horas a observar atentamente os caracteres Hiragana e Katakana.

Na bagagem intangível do viajante estagiário, há uma peça do valor de uma vida que levarei comigo na mala dos sentimentos: a amizade feita há três anos atrás com o Ryuji, companheiro dos tempos de futsal na equipa da Universidade de Aveiro.
Recordo como lhe enviei em Fevereiro um email amedrontado em inglês a informá-lo que iria trabalhar para Tokyo. O receio de que já não usasse aquele email. O receio de que já não se lembrasse de mim.
Cinco dias depois, arregalo os olhos com uma resposta em português:
“Bom, Nossa senhora! Que fixe que vais vir pró Japão! Que miragre! Estou muito contente que podemos ver de novo!!! Já estou ancioso que encontrarmo-nos.”

Sexta-feira, Abril 14, 2006

Contraceptivo bibliotecário

A entediante espera trimestral do estagiário por um sinal de permissão de descolagem por parte da Torre de Controlo do ICEP foi sendo ocupada pela ingestão literária dos mais variados temas relativos à cultura japonesa. Como português, comecei pelo princípio. Pelo primeiro contacto luso-nipónico, século XVI, auge da veia descobridora lusitana. São Francisco Xavier e Luís Fróis lideraram diversas missões de cristianização.
Surpreendeu-me a importância decisiva para o Japão da chegada das naus portuguesas: “São tão curiosos e importunos em perguntar, tão desejosos de saber, que nunca acabam de perguntar e de falar aos outros as cousas que lhes respondemos (…). Não sabiam eles [que] o mundo é redondo, nem sabiam o curso do Sol”, S. Francisco Xavier, ano de 1552.
Além da religião cristã, da sabedoria científica e geográfica, Portugal introduziu a arma de fogo nas ilhas nipónicas. A espingarda portuguesa resolveu conflitos intermináveis entre clãs rivais japoneses: resolução japonesa à portuguesa, a tiro com certeza.
Os japoneses souberam aproveitar a presença lusa: “É gente pouco cobiçosa e muito maviosa. Parece que vos querem meter na alma. São muito desejosos de saber de nossas terras e de outras coisas, se soubessem perguntar”, conta o explorador Jorge Álvares.

Depois das ex-colónias portuguesas, o Japão é o país do mundo que mais influência sofreu de Portugal.
Estas novidades históricas aguçaram-me a motivação para a pesquisa cultural, levando-me a passeios deambulatórios por arquivos bibliotecários.
Um encontro fortuito numa biblioteca conimbricense, e chega-me às mãos famintas de virares de páginas o livro ”Sushi Bar, Nós e os Japoneses”. Rejubilei, idealizando no livro uma autenticidade quase bíblica, um manual de preparação para o choque de culturas.
Catapultado por uma curiosidade voraz, inicio a leitura, linha após linha, século após século, nós e os japoneses.
Desisto ao terceiro capítulo do livro.
A experiência contada em Sushi Bar por Eduardo Kol de Carvalho, comete em mim o que me permito intitular de «assalto por negligência». Senti-me lesado em sensações. Não quero saber o que sente um português quando está num avião da Japan Airlines, quando chega a Tokyo, quando anda pela primeira vez no metro.
Prefiro fazer prevalecer a minha virgindade de sensações do efeito nipónico contemporâneo.
Não quero estar preparado para o choque. Saio em missão exploradora numa nau voadora, como se fosse por “por terras nunca dantes navegadas”.

Terça-feira, Abril 04, 2006

"E você vai mesmo para um sítio exótico..."

Não sei quantas horas passei em autêntico transe digital a ver o vídeo do jantar final do Curso de Gestão Internacional, quando os estagiários, um a um, ficaram a saber o destino do estágio.
Quando entro em cena, martirizado depois de oito dias ansiosos e martinizado depois de oito copos nervosos, observo como peço inquieto ao Prof. Alberto Castro, orador da noite, por “Sítios exóticos, sítios exóticos!”. Diz-me: “Pá, você vai para o ICEP, já é um sítio exótico”. Vejo-me a pôr as mãos na cabeça, ao lado de dirigentes do ICEP. Reajo. Depois conclui: “E você vai mesmo para um sítio exótico, você vai para o Japão”. Observo como volto as costas, agito as mãos, saio da sala. Reajo.
É-me impossível explicar aquelas reacções. Não consigo entender-me agora que me vejo sob o olhar supremo do registo fílmico. E ponho-me a reflectir sobre se é possível teorizar a posteriori sobre uma reacção individual. Não sei.

“Chile. Ou Cabo Verde”.
Era esta a resposta que dava quando me perguntavam para onde sonhava eu ir no Programa Contacto.
O Chile sempre foi uma perdição. Desde a veneração inocente da Ilha da Páscoa à luta ciberespacial por um “Erasmus” em Santiago do Chile, e todo um continente de sangue latino por descobrir numa viagem Poderosa. Cabo Verde é uma paixão que me invadiu o inconsciente depois de uma quinzena veraneante. O sorriso das crianças da Praia é uma perigosa endemia contagiosa.
Dois lugares de povos terra a terra, pobres de carteira, ricos de espírito. Agora que me interpreto a mim próprio, talvez quisesse saber como dar à vida simplicidade e receber simplicidade em troca, aprender como ser simples, ou tentar aprender a ser feliz, ou tentar aprender a ser feliz sendo simples. Não sei.

Mesmo sendo formalmente um estágio internacional, para mim o Contacto nunca deixou de ser um voo internacional, uma viagem sonhada, uma oportunidade única de sentir uma cultura antípoda.
Tinha feito uma lista mental de cinco países, que incluía o Japão.
Sítios exóticos… O Japão é dos lugares mais exóticos do mundo, porque é, aos olhos portugueses, diferença, choque, extravagância. Consumismo desenfreado, multidões ordenadas, formalismo rigoroso, tecnologia futurista. Muito pouco terra a terra. Mesmo ricos de carteira, os japoneses são ricos de espírito, espero confirmar.
Não me vejo agora a trocar Tóquio pelo Chile ou por Cabo Verde. Sei que se pudesse trocar, não o faria. Explicar porquê, não sei.

É a experiência extravagante que me espera que pesou na minha decisão de ter um espaço virtual - o blog - em que perpetue aquilo que vou ver e sentir. É também uma obrigação que faço a mim próprio, a de escrever uma vez por semana para o blog, a contar em palavras e em fotografias quão perdido vou andando pela cultura japonesa, mas também a contar uma viagem de exploração interior.
Outra razão óbvia é que usando as expressões orais coloquiais do português das noites jovens como “tipo”, “cena”, “coisa”, “na boa”, “brutal” ou “curti bué” não ia nunca conseguir descrever devidamente à família, amigos, conhecidos e desconhecidos, as peripécias porque passarei. Além de tudo isto, confesso que a viagem sonhada que fiz paralelamente à viagem de Gonçalo Cadilhe e os seus artigos na revista “Única” motivaram-me para continuar a busca anti inércia e a “fuga para a frente”, que persiste dentro de mim desde os meus quinze anos, altura da minha primeira viagem interculturas.
Obviamente, nunca colocarei os textos do blog à frente dos afazeres profissionais na delegação do ICEP, onde vou estagiar. Mas quero, mesmo assim, cumprir a promessa semanal. O tempo logo dirá se o vou cumprir. Eu, por agora, não sei.

Que venha o exotismo do Japão. Mal posso esperar. Mês de Abril, mês da Liberdade, mês de libertar-me do meu país pelo máximo período de tempo desde há 24 anos, quando chorei pela primeira vez.
Quando voltar, mal vou poder esperar pelo próximo estágio cultural.
Chile. Ou Cabo Verde”. Em qual estagiarei primeiro? Não sei.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Gestão Internacional das Emoções e a bolinha da roleta russa

INOV Contacto. Nona edição, segunda fase.
Faço parte de um conjunto de uma centena de jovens seleccionados para o Programa Contacto - Estágios Internacionais.
O programa patrocinado pelo ICEP inclui, numa primeira fase, um Curso de Gestão Internacional, que foi intensificado durante dez dias no Hotel Ipanema Porto, na cidade do Porto, no final do primeiro mês de 2006.

Fui dado como apto para o programa por ter um espírito aberto. Por me sujeitar a aceitar o destino que o destino me reserve, desde Madrid a Auckland, na Nova Zelândia. Por falar outros idiomas. Por ser sincero. Por gostar de viajar e conhecer novas culturas. Por estar preparado para choques culturais. Por estar preparado para choques.

Naquele hotel não tive nunca espírito aberto. A abertura de espírito cerrou-se dentro de um colete-de-forças imposto. Por estar preparado para choques…
A sensação de enclausura física e psicológica foi próxima à de um Big Brother, só que neste caso havia código de vestuário: por haver orador convidado ao almoço ou ao jantar não me era permitido tirar o apertado casaco executivo para saborear uma escaldante carne assada no forno plástico dos hotéis de muitas estrelas.
Coffee-break: cafeína, açúcar, tabaco, mais açúcar. Horários para cumprir, fatos para vestir. Choques térmicos de ares condicionados condicionadores de estados de saúde. Níveis de ansiedade altíssimos. Níveis de concentração baixíssimos. A criatividade artística ao rubro: revelaram-se gestores cartoonistas, economistas caricaturistas, engenheiros poetas, doutores pintores.
As relações humanas redobram-se dentro de um Big Brother. Não mais esquecerei aquela semana de suores ansiosos, nem os colegas agora amigos que mais a partilharam comigo.

O curso intensivo foi intensificando a tensão de cada um. Só no jantar final se sabe o destino do estágio. É a Gestão Internacional das Emoções.
Fui-me sentindo sempre como uma bolinha saltitante da roleta russa.
Eu, a bolinha. A roleta, o globo terrestre.
Não fui doutor nem engenheiro, nem nunca serei.
Fui como uma bolinha da roleta russa. Que não sabia onde ia parar e que teve de
se aguentar a saltitar durante dez dias.


(o texto seguinte foi escrito durante uma das sessões do Curso de Gestão Internacional)

Descarga de stress por uma caneta” (27 de Janeiro de 2006)

Estou aqui de corpo presente e de mente ausente, é um colete-de-forças ontológico que me senta na cadeira e onde me assenta um casaco estupidamente atípico de qualquer tentativa de produtividade. São as etiquetas morais que mandam, as imagens mentais que comandam. Os códigos de vestuário que existem para quem não tem fato de facto porque não tem que ter já que se não tem papel verde não pode ver o semáforo verde para avançar no tráfego socialmente aconselhável o que no dicionário das cidades executivas é o mesmo que dizer imposto como as gravatas espampanantes e enforcantes de mentalidades conformistas.

Que faço eu aqui. Cumpro. Surjo às horas marcadas. Visto o aconselhável. Mudo o aconselhável. Perco tempo a mudar o aconselhável. Reajo ao aconselhável. Que faço eu aqui. Estou aqui. Estou aqui mas não sou eu que aqui estou. Sou aqui aquilo que querem que eu seja. Mas se querem que eu seja como eu não sou, como consigo ser eu? É o labirinto de caminhos predestinados que me faz pisar as mesmas poças espezinhadas por outros que se condenaram a não ver a saída do labirinto. Eu já vi a saída. Ela simplesmente não existe porque o labirinto não existe.
Que faço eu aqui. Quero ver-me daqui p’ra fora. Quero ser alguém que lhe deixam ser alguém. Somos todos diferentes de maneira igual porque o mundo é diferente mas caminha sempre de forma igual.