segunda-feira, maio 07, 2007

A história dos 47 Ronin: Uma lenda contemporânea

A lenda dos 47 Ronin é um dos mais famosos episódios que sucedeu na História do Japão. A história reflecte o código de honra do guerreiro samurai. E continua actual. No Japão, o instrumento de dedicação e compromisso com os superiores passou das katanas às gravatas. (nota: katana é uma palavra japonesa)

Mas viajemos, no calendário que limita a minha condição ocidental, a 1701…

Era uma vez o daymio Asano Naganori. Os daymio faziam parte da hierarquia mais poderosa dos senhores feudais. Asano tinha sido ordenado pelo shogunato para se preparar para a recepção dos mensageiros do Imperador em Edo, o antigo nome referente a Tóquio.

Asano recebia lições de etiqueta por parte de Kira Yoshinaka, um poderoso oficial na hierarquia liderada pelo shogun Tokugawa. A tensão entre os dois começou a subir quando Asano não ofereceu a Kira presentes que o satisfizessem. Kira não gostou de não ter sido subornado para melhor tratar Asano. De um lado, tínhamos, então, um arrogante rude corrupto, e do outro, um confucionista que por o ser, conhecia o conceito de moral. Kira, sabendo da sua superioridade hierárquica, insultava e humilhava em público Asano, até que um dia, ao chamar-lhe de selvagem camponês, Asano perdeu as nipónicas estribeiras tão difíceis de perder e atacou Kira com uma faca, ferindo-o seriamente na face.

Mas o mais grave neste descontrole não foi a contusão, mas o ataque dentro dos limites da residência do Shogun, onde qualquer tipo de violência era proibida, pelo que Asano foi obrigado a cometer suicídio no mesmo dia, por ofensa para com a autoridade. Asano, sabendo que seria decapitado se não cometesse o sepukku, cortou o próprio estômago. Após a sua morte, as suas terras foram confiscadas, a sua família arruinada e os samurais às suas ordens tornaram-se samurais sem mestre, ronin.
Asano tinha 34 anos. Antes de cometer o suicídio, escreveu, como era tradição, o seu poema da morte: “Talvez ela queira ser lembrada após a morte. A flor da cerejeira cai depressa, mas a memória da Primavera permanece."

47 dos guerreiros de Asano prometeram vingar a morte do seu mestre. Liderados por Oishi, agruparam-se em segredo para jurar a morte de Kira, sabendo, porém, que cumprida a promessa, o seu caminho era a morte. Kira, temendo represálias, fortificou a sua residência. Os 47 Ronin sabiam que para suceder teriam de esperar que este atenuasse a sua vigilância. Dispersaram-se e souberam esperar pelo momento certo. O próprio Oishi, o líder do plano de vingança, mudou-se para Kyoto para desviar atenções, onde passou a frequentar tabernas. Kira continuava amedrontado, e enviou espiões, os ninja, para observar os antigos serventes de Asano. Um certo dia, Oishi adormeceu embriagado de saqué numa rua de Kyoto. Os transeuntes riam-se e um deles, um senhor da província de Satsuma, enfurecido pelo comportamento incorrecto por parte de um samurai, pois Oishi bebia até cair em vez de vingar o seu mestre, insultou-o e pontapeou-o na cara, um insulto atroz para um samurai. Pouco tempo depois, a jovem esposa de Oishi queixou-se da sua conduta. Oishi divorciou-se dela nesse mesmo momento, e ordenou-a que partisse com os dois filhos mais novos, ficando o mais velho à sua guarda. Em consequência, Oishi comprou uma amante.

Os ninja de Kira contaram-lhe tudo, e este ficava cada vez mais convencido que estava a salvo, que os samurais de Asano eram inofensivos e não tinham coragem, e assim baixou a sua guarda. Os outros 46 samurais trabalhavam como mercadores em Edo, tendo acesso à residência de Kira, conhecendo os cantos à casa. Um dos samurais, para obter as plantas da casa, casou com a filha do construtor. Tudo isto era secretamente narrado a Oishi.

Em 1702, quando tudo estava preparado e Kira já não tinha vigília, Oishi abandonou Kyoto, fugindo aos ninja, e juntou-se ao bando num local secreto, onde renovaram a promessa de vingar o seu mestre. Na alvorada de 14 de Dezembro, durante um forte nevão, os 47 Ronin atacaram a residência de Kira Yoshinaka em Edo. Seguindo um plano niponicamente pormenorizado, dividiram-se em dois grupos, armados com katanas e kyudos (arcos). Um grupo, liderado por Ōishi, atacou o portão principal; o outro grupo, liderado pelo seu filho mais velho, invadiu a casa pelas traseiras. Um tambor tocaria como sinal de ataque simultâneo e um apito confirmaria a morte de Kira. Assim que estivesse morto, Kira seria decapitado e a sua cabeça levada para junto ao túmulo do seu mestre. Depois, os 47 Ronin entregar-se-iam esperando a sentença de morte. Oishi pedira que mulheres e crianças fossem poupadas. Enviou mensageiros para informar os vizinhos de que não eram ladrões e que apenas pretendiam assassinar Kira. Os vizinhos, que odiavam Kira, nada fizeram.

Depois de posicionados os arqueiros para evitar qualquer fuga do castelo que desse o alerta, Ōishi soou o tambor e o ataque começou. Dez dos defensores de Kira detiveram os invasores da entrada principal, mas o grupo comandado pelo filho de Oishi entrou pelas traseiras da casa. Kira, aterrorizado, escondeu-se num armário. Depois de vencerem os defensores em frente à casa, os dois grupos juntaram-se e eliminaram a restante oposição. Os que tentaram fugir para pedir ajuda foram mortos pelos arqueiros. Com isto tudo os 47 Ronin tinham já assassinado 16 e ferido 22 guardas de Kira. Mas, onde estava Kira?

Inspeccionaram a casa, mas só encontraram mulheres e crianças. Até que Oishi se apercebeu que a cama de Kira ainda estava quente, portanto não poderia estar longe. Uma nova procura mais exaustiva descortinou uma passagem para um pátio secreto, onde estavam mais dois guardas que foram vencidos e mortos. Finalmente, encontraram um homem, que atacou um dos samurais com uma faca, mas foi facilmente desarmado. Recusou-se a identificar-se mas os samurais presentes achavam que era Kira e soaram o apito. Os 47 Ronin juntaram-se e Oishi confirmou que era, de facto, Kira pois tinha a cicatriz na face resultante do ataque de Asano. Assim, Oishi ajoelhou-se, respeitando o grau hierárquico de Kira, identificou-se como um dos guerreiros de Asano que ali estava para vingar a sua morte, como um verdadeiro samurai deve fazer, e convidou Kira a morrer dignamente, por suicídio, oferecendo-lhe a mesma faca que Asano usara para se matar. Todavia, Kira permanecia calado e a tremer. Oishi deu ordem a um dos Ronin para o decapitar.

O dia nascera, e os ronin carregaram a cabeça de Kira até ao túmulo do seu mestre no templo Sengaku-ji, causando grande alvoroço pelo caminho. A novidade espalhou-se rapidamente e as pessoas saudavam-lhes pelo caminho. Chegados ao templo, os 47 Ronin lavaram a cabeça de Kira e colocaram-na em frente ao túmulo de Asano. Seguidamente, entregaram-se às autoridades. Apesar dos samurais sem dono terem seguido o código de Bushido, haviam desafiado o poder do shogunato. Como esperavam, foram sentenciados com a pena de morte, mas foi-lhes concedida a oportunidade de cometer seppuku, suicídio, em vez de serem executados como criminosos.

No dia 4 de Fevereiro de 1703, os 47 Ronin cometeram suicídio. Foram sepultados no templo de Sengaku-ji, junto a seu mestre, como era a sua vontade. Muitos admiradores da sua coragem peregrinaram até ao túmulo. Uma das pessoas foi o senhor da província de Satsuma, que pontapeara Oishi quando este estava embriagado. Em frente ao jazigo, ele pediu perdão por ter pensado que Oishi não era um verdadeiro samurai. Cometeu suicídio de seguida, tendo sido enterrado ao lado dos 47 Ronin. Algumas das esposas dos bravos samurais, também cometeram suicídio, para se juntar, honrosas, aos seus esposos.
E ninguém desta história viveu feliz para sempre.



Mas como em tudo é possível interpretar de diferentes perspectivas, o autor do “Livro do Samurai”, Yamamoto Tsunemoto, contemporâneo da história dos 47 Ronin, defende que os samurais não agiram segundo o código de honra Bushido. Questiona: que fariam os samurais se Kira falecesse por doença entre o tempo que preparavam a sua morte? Seriam vistos para sempre como cobardes e trariam vergonha ao clã Asano. Para Yamamoto, o que os ronin deveriam ter feito era atacar Kira assim que o seu mestre estivesse morto, sem se preocupar se atingiam o objectivo de o assassinar, mas assim demonstrar extraordinária coragem e determinação no ataque a Kira, e deste modo conseguir o respeito eterno do seu mestre.

Para Yamamoto, a lenda dos 47 Ronin é uma história de vingança e nunca uma história sobre o Bushido. Para mim é uma história sobre a humanidade, e por o ser está manchada de sangue.

Segundo o mesmo autor, no código do Samurai não é a vitoria que interessa, mas sim a dedicação que se demonstra. Este valor moral continua a existir no Japão actual. Nas empresas japonesas, não são os resultados que realmente importam, mas o empenho no trabalho e a deferência para com o chefe. É preferível trabalhar pouco mas estar com o chefe sempre que ele precisar do que trabalhar bem e sair da empresa assim que acabado o trabalho. O mesmo que suicidar o tempo de vida.

Há algumas décadas atrás, em plena 2ª Guerra Mundial, o código do samurai foi invocado como propaganda para incentivar os jovens japoneses, filhos do império, a enfrentar a guerra sem temer a morte. A essência do código samurai era morrer e assim se tornaram kamikazes muitos adolescentes nipónicos, obrigados a entrar num avião com gasolina só de ida de encontro aos navios americanos.
À semelhança do ataque dos 47 Ronin, o ataque kamikaze é um ataque surpresa, de acordo com as tradicionais tácticas de guerra japonesas. Mas uma surpresa repetida deixa de ser surpresa. Na 2ª Grande Guerra, acedendo às ordens dos superiores, como nas entrelinhas da lenda dos 47 Ronin, os jovens japoneses não cometeram suicídio como a História adultera. Foram, sim, mártires da obediência. No Japão uma ordem serve para ser aceite, não discutida. Aliás, samurai significa aquele que serve. E os 47 samurais agora ronin, órfãos da autoridade, serviram a vida ao seu mestre.

Mas tudo lhes correu como planeado. E o país onde o sol nasce continua a traçar tudo ao detalhe para evitar surpresas, continua a ser paciente com os pormenores, e os objectivos são cumpridos como pretendidos.
A situação da mulher é que tem vindo a alterar-se e a hierarquia dos sexos está cada vez mais contígua no Japão contemporâneo. A história do passado acarreta o futuro dos países mas o tempo é evolução, é aperfeiçoamento, e alguns valores têm vindo a alterar-se desde a época dos 47 Ronin. Alguns.

6 Comments:

Anonymous Tuxa disse...

Muito, muito interessante! Conhecia a historia mas nao com tantos detalhes e analise. Gostei verdadeiramente e voltarei de certeza.

7/5/07 7:51 da tarde  
Anonymous mae disse...

Excelente texto !
"Alguns valores" alteraram-se,constatas tu.
Eu , por aqui interrogo-me muitas vezes, onde estão os valores?
O Alto preço da civilização!!!

Continua filho...

12/5/07 1:29 da manhã  
Blogger careca disse...

é uma cultura fantástica. e nós por cá, agradecemos-te por a partilhares, e principalmente por seres um elo de ligação, através dos teu bonitos textos, entre as 2 culturas.

um abraço

8/6/07 7:22 da tarde  
Blogger Renato disse...

Exelente texto!

Já tinha lido sobre essa história anteriormente, mas não com tantos detalhes...

Parabéns!

13/6/08 3:41 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Muito interessante saber acerca da honra e lealdade dos japoneses, sua cultura muito me fascina. E é bom ver que existem pessoas como você, que nos traz estes esclarecimentos. Obrigado!

7/5/09 11:20 da manhã  
Blogger Gilberto Ohoishi disse...

Muito interessante este comentário, eu sabia pouco sobre este assunto, me interessei devido a alguns conhecedores desta história falarem o parentesco deste Samurai c/ minha família, não sei até onde isso seria verdade ou não.
Caso quem postou esta historia possa me fornecer algo mais, fico agradecido, pois minha família agradece.
Gilberto Oishi ou Ohoishi
Taiki Oishi ou Ohoishi
godive@ig.com.br para contatos.

28/5/09 9:24 da manhã  

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